Escândalo envolve a Cruz Vermelha da China e questiona desvio nas doações

As fotos de Guo Meimei aumentaram a desconfiança em relação às organizações sem fins lucrativos

Por Edward Wong

As fotografias de uma sedutora menina caíram como uma bomba no mundo da filantropia chinesa. Uma delas mostrava a jovem, de óculos escuros, encostada em um Maserati branco. Em outra, um armário repleto de bolsas da marca francesa Hermés. 

Em uma terceira imagem, a menina se exibia tomando um drinque em uma cabine de primeira classe de um avião.

Nenhuma destas imagens seria considerada ultrajante para os padrões dos novos ricos do país. O que fez a polêmica entrar em erupção foi o fato de que a jovem, Guo Meimei, de 20 anos, afirma em sua página da internet exercer um cargo importante na Sociedade da Cruz Vermelha da China, uma organização governamental responsável pela maior arrecadação de caridade do país.

 Conhecida como Guo Meimei Baby, ela se diz gerente comercial da Cruz Vermelha, ao mesmo tempo em que publica fotos de seu alto padrão de vida no blog.

Desde que usuários da internet apontaram o absurdo, no final de junho, Guo e a Cruz Vermelha têm sido um dos assuntos mais comentados na mídia. A organização chinesa, que não tem relações com a organização internacional, negou ligação direta com Guo, mas a polícia está investigando o caso. Alguns jornais chineses especulam que ela possa ser a namorada de Wang Jun, um senhor que organiza eventos de caridade para a organização.

O website de Guo, porém, hospedado no servidor Sina Weibo, é marcado com um “V”, o que significa que a identidade da menina havia sido verificada e comprovada pela empresa. Choveram críticas e a jovem tentou se defender dizendo que sua empresa, apesar de ter relações, opera independentemente da Cruz Vermelha. Com o aumento da pressão política, ambas as partes começaram a negar envolvimento.

No último dia 24, a Cruz Vermelha apresentou uma queixa contra Guo na polícia. Dois dias depois, a menina se desculpou em seu site por seu “comportamento estúpido e ignorante” e por ter inventado uma “falsa identidade”. Apesar da investigação em curso, os posts do blog de Guo que comprometiam a Cruz Vermelha foram deletados, o que foi visto pela população como um termômetro da delicada situação do escândalo.

Algumas pessoas temem que o escândalo aumente suspeitas de corrupção em organizações de caridade chinesas, o que pode desencaminhar a filantropia local, responsável por atender necessidades básicas como educação e saúde em algumas partes do país.     

 “As pessoas têm dúvidas sobre isso há um bom tempo. O problema é a confiança e a grande responsabilidade das organizações filantrópicas na China”, analisa Jia Xijin, diretora de um centro de pesquisas na Universidade de Pequim.

Enquanto cada vez mais chineses estão subindo de classe – a Forbes listou 115 bilionários na China neste ano, contra 64 no ano passado – alguns estão buscando fazer o bem através de doações para caridade. O terremoto Sichuan, em 2008, aumentou a consciência cívica e, no ano seguinte, o governo arrecadou oito bilhões de iuanes (moeda local) em doações. Ainda assim, críticas surgiram sobre a avarenta burguesia chinesa, principalmente depois que Warren Buffet e Bill Gates foram a Pequim no ano passado para encorajar a filantropia. 

Muitos magnatas se dizem receosos de doar suas riquezas por temerem que o dinheiro seja desviado. Este medo está relacionado à insistência do governo de controlar a caridade e promover suas próprias organizações filantrópicas, enquanto impõe limites às atividades das organizações privadas. Desta forma, as empresas sem fins lucrativos comandadas pelo governo, como a Cruz Vermelha, são fontes de dúvidas da população.  

Estes grupos têm grande potencial em solicitar doações públicas e recebem prioridade do governo em épocas de desastre, quando as pessoas estão buscando uma forma de ajudar os necessitados. Dados oficiais mostraram, em fevereiro de 2009, que a Cruz Vermelha recebeu mais de 735 milhões de iuanes depois do terremoto Sichuan, mesmo depois que magnatas como o economista Wang Shi, aconselharam o contrário.

Diversos episódios recentes levantaram suspeitas. Em abril, um pequeno grupo da filial de Xangai da Cruz Vermelha pagou 1.500 iuanes em restaurante. A imagem da conta circulou a internet. No dia 26 de junho, no meio do escândalo de Guo Meimei, o Escritório Nacional de Auditoria publicou um relatório listando cinco problemas financeiros que a organização havia encoberto. O escândalo que mais recebeu críticas foi o que mostrava que a organização, com um orçamento aprovado de quase 45 milhões de iuanes, havia superfaturado a compra de equipamentos, em 650 mil iuanes.

Muitos chineses não confiam na Cruz Vermelha por causa de seu status legal – é uma das 25 grandes organizações que respondem ao Partido Comunista e ao gabinete chinês. Todas as outras organizações sem fins lucrativos do país devem responder ao Ministério de Assuntos Públicos, que tem responsabilidade sobre 420 mil entidades.

“Eles recebem incentivos financeiros do governo, seus empregados são pagos com verba pública e sua função é servir como uma agência do governo”, critica Jia Xijin.

Segundo ela, apenas a Cruz Vermelha e uma pequena organização, a Federação de Caridade da China, podem pedir doações ao governo. Em tempos de crises, outros grupos podem receber autorização para arrecadar dinheiro com o governo, mas a Cruz Vermelha sempre tem preferência.

Feng Lun, um magnata que começou uma fundação de caridade dentro de sua empresa, a Vantone Group, afirmou que as organizações comandadas pelo governo “não são transparentes e não são suficientemente eficientes”, porque não contam com profissionais experientes na área da caridade.  

“Este é só o início das revelações dos problemas em organização sem fins lucrativos em geral. Acho que pode ser positivo, para que a população chinesa brigue por mais transparência”, diz Feng.