Repórter brasileiro preso na Líbia temeu ser executado
Paris - O jornalista brasileiro Andrei Netto, que ficou oito dias detido em uma base militar líbia na periferia de Trípoli, capital do país, chegou às 5h50 deste sábado (1h50 de Brasília), no aeroporto Charles De Gaulle, em Paris. O correspondente do jornal O Estado de S.Paulo desembarcou na capital francesa em um voo proveniente de Dubai, após ter sido liberado pelas forças militares de Muammar Kadafi na última quinta-feira e passar uma noite na embaixada brasileira na capital líbia.
Cansado e visivelmente mais magro, Andrei disse ter sido bem tratado durante o período em que ficou preso. O jornalista contou que passou por momentos de angústia quando foi informado pelos militares de que ficaria incomunicável até o fim do conflito no país. "Eles foram muito claros desde o início de que não poderíamos fazer telefonemas", afirmou.
A prisão aconteceu na noite de quarta-feira, 2 de março, na cidade de Sabratha, próxima da capital. Andrei estava hospedado na casa de um líbio, junto com o correspondente do jornal inglês The Guardian, o iraquiano Ghaith Abdul-Ahad, que permanece detido. Os dois receberam a notícia de que deveriam deixar a casa e se esconder em uma construção do outro lado da rua. Nesse momento, o brasileiro soube que a prisão era iminente.
"Nós sabíamos que estávamos sendo traídos por algum fato, podia ser pelo dono da casa, pelo amigo do dono (que depois descobrimos ser um miliciano) ou até pelo celular grampeado do embaixador do Brasil, com quem eu mantinha contato", disse Andrei.
Cerca de 20 minutos após se refugir na construção, onde não havia luz elétrica, os dois jornalistas foram abordados por milicianos contratados por Kadafi. Foi o único momento em que Andrei sofreu uma agressão física. Encapuzado, o brasileiro recebeu uma coronhada na cabeça. Em seguida, foi entregue às forças do serviço secreto líbio, antes de acabar nas mãos dos militares do país.
Encarcerado em uma cela iluminada 24 horas por dia, Andrei disse que não tinha nenhuma previsão de quando seria libertado pelos militares. "A minha maior expectativa era de que o governo brasileiro já tivesse algum tipo de informação de onde nós estávamos, para que as nossas famílias pudessem estar informadas a nosso respeito", contou o jornalista, ao desembarcar em Paris.
A liberdade
Andrei passou por momentos de tensão. No último domingo, a base militar onde estava foi atacada por um comando rebelde, em uma troca de tiros que durou mais de 40 minutos. Apesar da violência do ataque, o correspondente teve esperanças de que aquela poderia ser uma alternativa para sua libertação, pois os militares poderiam acabar se rendendo.
A liberdade finalmente veio na quinta-feira, um dia após o jornal O Estado de S.Paulo ter informado sobre o desaparecimento de Andrei. Em seguida, o Itamaraty acionou o embaixador brasileiro em Trípoli, George Ney de Souza Fernandes, que iniciou negociações para que o jornalista fosse solto. "O peso diplomático do Brasil funciona muito nessa região", disse Andrei.
Há um ano e meio, os laços entre os governos líbio e brasileiro atingiram seu ápice, ao ponto do ex-presidente Lula ter chamado o ditador Kadafi de grande irmão e amigo. "Ele (Kadafi) ainda tem essa imagem de um Brasil amigo, se ela é verdadeira ainda hoje, nós não sabemos, mas eles tentam manter essa imagem", explicou o jornalista.
O medo da morte
Sem comunicação com o exterior, em meio a uma revolta popular que já deixou centenas de mortos e milhares de feridos, o medo de ser executado esteve presente do início ao fim da passagem do jornalista pela Líbia. "Quando me disseram que eu sairia, essa dúvida persistia", afirmou.
O momento de maior tensão foi quando o brasileiro e seu colega Abdul-Ahad foram entregue aos militares. Até aquela hora, Andrei acreditava que não teria grandes problemas em continuar cobrindo a revolta popular. "Nesse momento teve uma transição de tratamento, porque os serviços secretos estavam nos tratando bem, até então", explicou.
Com os olhos ainda vendados, o brasileiro foi então algemado e obrigado a retirar o casaco e a ficar descalço, com os pés na areia úmida e sob um frio de 3º Celsius, provavelmente no meio do deserto. "Naquele momento, eu senti que não havia ninguém na minha frente, só atrás de mim", contou Andrei, foi quando temeu por sua vida. "Nessa hora, o que passa pela cabeça é a execução", disse.
Apelo pela libertação de jornalista iraquiano
Ao desembarcar em Paris, Andrei também mostrou muita preocupação pela sorte de seu colega Ghaith Abdul-Ahad, que continua preso. "Eu sei que ele está em boa saúde, porque um dos guardas me disse", afirmou.
O jornalista brasileiro acredita que esse é o momento ideal para a libertação de Abdul-Ahad, já que ainda existem as mesmas condições nas quais ele próprio foi libertado. "Nós não sabemos em que condições políticas esse país vai estar daqui a uma semana", alertou.
Andrei fez um apelo para que o Itamaraty se envolva diretamente nas negociações para liberar Abdul-Ahad. "Eu recebi ontem uma informação do The Guardian de que existe um acordo com o governo líbio para que ele saia a qualquer momento", disse o brasileiro. A única exigência do regime de Kadafi é que um embaixador receba o iraquiano imediatamente após sua soltura. O problema é que não há representantes da diplomacia do Iraque no país.
"O embaixador George Ney me disse que estava disposto a fazer essa mediação, mas precisa da autorização do Itamaraty", contou Andrei. "Se eu ainda puder fazer um pedido ao Itamaraty e à presidente Dilma, dêem o sinal verde para que o embaixador aja neste momento, porque a libertação do Ghaith Abdul-Ahad é iminente e o Brasil pode ajudar, determinantemente, nesse assunto", disse.
O jornalista destacou, ainda, o papel fundamental da cobertura da imprensa em conflitos como o que ocorre na Líbia. "A imprensa, nessas circunstâncias, é uma garantia de que um massacre não vai acontecer", afirmou, dizendo não estar arrependido de nada.
Líbios enfrentam repressão e desafiam Kadafi
Impulsionada pela derrocada dos presidentes da Tunísia e do Egito, a população da Líbia iniciou protestos contra o líder Muammar Kadafi, que comanda o país desde 1969. As manifestações começaram a tomar vulto no dia 17 de fevereiro, e, em poucos dias, ao menos a capital Trípoli e as cidades de Benghazi e Tobruk já haviam se tornado palco de confrontos entre manifestantes e o exército.
Os relatos vindos do país não são precisos, mas a onda de protestos nas ruas líbias já é bem mais violenta que as que derrubaram o tunisiano Ben Ali e o egípcio Mubarak. A população tem enfrentado uma dura repressão das forças armadas comandas por Kadafi. Há informações de que aeronáutica líbia teria bombardeado grupos de manifestantes em Trípoli. Estima-se que centenas de pessoas, entre manifestantes e policiais, tenham morrido. Muitas dezenas de milhares já deixaram o país.
Além da repressão, o governo líbio reagiu através dos pronunciamentos de Saif al-Islam , filho de Kadafi, que foi à TV acusar os protestos de um complô para dividir a Líbia, e do próprio Kadafi, que, também pela televisão, esbravejou durante mais de uma hora, xingando os contestadores de suas quatro décadas de governo centralizado e ameaçando-os de morte. Desde então, as aparições televisivas do líder líbio têm sido frequentes, variando de mensagens em que fala do amor da população até discursos em que promete vazar os olhos da oposição.
Não apenas o clamor das ruas, mas também a pressão política cresce contra o coronel. Internamente, um ministro líbio renunciou e pediu que as Forças Armadas se unissem à população. Vários embaixadores líbios também pediram renúncia ou, ao menos, teceram duras críticas à repressão. Além disso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas fez reuniões emergenciais, nas quais responsabilizou Kadafi pelas mortes e indicou que a chacina na Líbia pode configurar um crime contra a humanidade. Mais recentemente, o Tribunal Penal Internacional iniciou investigações sobre as ações de Kadafi, contra quem também a Interpol emitiu um alerta internacional.
