Garcia: Brasil não é aliado do Irã; acordo é passo importante
Portal Terra
BRASILIA - O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou nesta segunda-feira em Madri (Espanha) que o Brasil não é aliado do Irã só porque realizou um acordo com o país. O acerto visa a desbloquear o polêmico programa nuclear iraniano, alvo da desconfiança internacional.
"Não é aliado do Irã coisa nenhuma", afirmou Garcia. "O Brasil fez um movimento em direção ao Irã, assim como a Turquia, no sentido de obter uma solução negociada para um problema que extravasa muito mais aquele país", disse o assessor do presidente Lula, para quem o acordo foi uma "oportunidade ímpar de o Irã sair do isolamento".
Ele reconheceu, no entanto, que ainda restam pontos a serem melhor costurados, mas não especificou quais são. "Todo o mundo tem que entender que não está resolvido o problema do contencioso nuclear no qual o Irã está envolvido, mas se deu um passo importante. É importante porque eles entenderam que estavam lá dois interlocutores que não estavam lá para satanizá-los, mas sim para ajudá-los".
Garcia acompanha Lula na Cúpula União Europeia-América Latina e Caribe, que se iniciou hoje na capital espanhola. O presidente brasileiro deixou Terrã na manhã desta segunda-feira, depois de ter intermediado um acordo entre o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o primeiro-ministro da Turquia, Tayyiq Erdogan. O acerto prevê o envio de 1,2 mil quilos de urânio iraniano para a Turquia, que estocaria o material enquanto França e Rússia o enriqueceriam em 20% - tratamento insuficiente para o uso militar do elemento. Até então, Ahmadinejad se recusava a entregar o urânio sem ter a garantia de que o receberia de volta.
Garcia minimizou o clima de ceticismo da comunidade internacional em relação ao avanço para um acordo maior e mais claro com o país islâmico. Ele afirmou que o acerto responde inclusive aos anseios do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, explicados em uma carta que o americano enviou a Lula para tratar do assunto, há cerca de um mês. "O ceticismo é daqueles que não querem o acordo. Essas pessoas só trabalham com essa hipótese das sanções", disse Garcia. "É daqueles que acham que a política tem sempre de ter um inimigo muito localizado, e o inimigo é o Irã, o grande Satã, e portanto todos aqueles que não estão de acordo com esse método, estão amalgamados com o Irã".
Conforme o assessor, Lula conversou sobre o acordo feito com Ahmadinejad com o presidente russo, Dimitri Medvedev, no início da noite de hoje. Segundo fontes da comitiva brasileira, o russo teria dito ao presidente brasileiro que conseguir um compromisso escrito de Ahmadinejad foi uma vitória pessoal de Lula. Medvedev também teria afirmado que tudo indicava para a aplicações de sanções ao Irã por não ter cumprido as determinações da Agência Internacional de Energia Atômica em relação ao seu programa nuclear, mas que Lula teria conseguido a oportunidade de as coisas seguirem um outro rumo.
"Irã não é um Estado totalitário", diz Garcia
Na entrevista a jornalistas brasileiros, Garcia ainda negou que o Irã seja um país totalitário. "Qualquer pessoa que tenha lido dois livros sobre o Irã e que passe um pouquinho de tempo lá se dá conta de que é uma sociedade muito complexa, onde há muitos centros de decisão, portanto não é um Estado totalitário como outros podem ser", avalia o brasileiro. "Pode ser um Estado que não nos agrade, e isso é uma outra coisa. Mas é um Estado onde há mecanismos plurais de definição".
Devido aos avanços, Garcia espera que o Brasil possa continuar exercendo um papel de mediador na questão iraniana, uma vez que já vinha conversando secretamente com o governo do país havia mais de seis meses e poderia continuar participando como um interlocutor neutro nas negociações.
