Impasse nuclear: Lula vê 99% de chances de acordo
Jornal do Brasil
MOSCOU - Cercado de expectativas de todo o mundo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega sábado à capital iraniana, Teerã, para tentar mediar um diálogo sobre o polêmico programa nuclear do governo de Mahmoud Ahmadinejad. Depois de reunir-se sexta-feira com o presidente russo, Dmitri Medvedev, no Kremlin, Lula se declarou confiante de que conseguirá convencer o Irã a voltar `a mesa de negociações. Indagado sobre quais as chances de um acordo durante sua visita ao país, numa escala de zero a 10, Lula disparou: Eu daria 9,9 . Mais cauteloso, Medvedev considerou que a probabilidade de um acordo durante a visita de Lula é de 30%.
Vou ao Irã com a convicção de que vamos encontrar um acordo disse Lula. Se não encontrarmos acordo, vou para casa feliz porque não fui omisso.
O otimismo do presidente parece indicar que já deve haver alguma coisa positiva negociada com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, como apontam também as mudanças na reação de países como EUA, França e Rússia, que já manifestaram um entendimento de que o governo brasileiro é a última chance do Irã antes que a comunidade internacional aplique sanções ao país.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, antecipou sua ida a Teerã e viajou sexta-feira mesmo à capital iraniana, cancelando a escala que faria junto ao presidente no Qatar para concluir as negociações com o governo iraniano antes da chegada de Lula ao país. Domingo, o presidente se reunirá com Ahmadinejad, o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente do parlamento iraniano, Ali Larijani.
A chave de um acordo para solucionar o impasse nuclear é encontrar uma fórmula que permita ao Irã enriquecer urânio a 20% fora de suas fronteiras, em uma operação que a princípio aconteceria sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.
De acordo com o embaixador iraniano em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, o Irã insiste que a troca de urânio enriquecido a 5% por material a 20% seja simultânea. Se a condição for aceita, afirma Shaterzadeh, o Irã está disposto a negociar o local da operação.
O jornal britânico Financial Times publicou sexta-feira uma reportagem em que critica a ingerência de Lula no Irã. Segundo o veículo, ao tentar mediar um diálogo com Teerã, o Brasil desafia a política externa dos Estados Unidos .
Luiz Felipe Lampreia: Promessas não serão cumpridas
Joana Duarte
O embaixador e ex-ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Lampreia, considera extremamente improvável que Lula consiga convencer o Irã a fechar um acordo sobre seu programa nuclear.
Como o senhor vê essa visita do presidente Lula a Teerã, onde pretende evitar sanções contra a República Islâmica?
Acho que a passagem de Lula por Teerã tem poucas chances de sucesso, porque o programa nuclear iraniano não é algo que possa ser modificado de uma hora para outra. É um programa nacional, caríssimo e com orientação francamente militar. Acho improvável que Lula tenha êxito, mas isso não quer dizer que, a curto prazo, ele não possa obter uma promessa, aceno ou demonstração de boa vontade, como muitos outros que já tentaram obtiveram. Entretanto, na hora de se concretizar um eventual acordo, o mais provável é que compromissos não serão cumpridos, já que o Irã não pretende abrir mão de suas ambições nucleares.
Quais são os riscos do Brasil em apostar nessa camaradagem entre Lula e Ahmadinejad?
O risco é perdermos nossa credibilidade internacional.
Um desfecho positivo poderia alavancar o status do Brasil no cenário mundial?
Só se o Irã concordar com uma solução para a troca de seu urânio enriquecido, e demonstrar claramente que não esta perseguindo um caminho militar, mas isso é altamente improvável.
Francisco Carlos Teixeira: Brasil é relevante no cenário internacional
Francisco Carlos Teixeira, professor de história contemporânea e moderna na UFRJ, defende a postura do presidente Lula de apostar no diálogo e não no enfrentamento entre potências ocidentais e o Irã. Para o professor, o Brasil, oitava economia do mundo, tem peso para mediar este e outros conflitos internacionais.
Como o senhor vê essa iniciativa do presidente Lula de tentar resolver o impasse nuclear iraniano?
Lula tomou essa iniciativa contra todas as expectativas e sobre forte críticas, mas acabou convencendo a todos que o diálogo é melhor que o enfrentamento. No último mês, o jornal israelense Haaretz classificou Lula como profeta da paz e, ha 10 dias, a Time o colocou como a mais influente personalidade mundial. Se Lula é capaz de utilizar isso para negociar algo que possa evitar uma tragédia de grandes proporções, qual é o mal que isso pode ter? Não queremos guerra e sanções, que têm comprovado ser de pouca utilidade.
Quais são os riscos que o Brasil corre ao acreditar na amizade entre Lula e Ahmadinejad?
Não há que se falar em amizade nem riscos. Lula recebeu Ahmadinejad no Brasil como recebe outros chefes de Estado. Para o Brasil, a solução do impasse nuclear não tem consequência maior, mas reforça a imagem de sermos um país que não quer a guerra
Um desfecho positivo pode alavancar o status do Brasil no cenário internacional?
Em caso de um resultado satisfatório, não creio que as grandes potências irão reconhecer que foi mérito do Brasil.
