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Programa nuclear: ONU reprova Irã. Brasil se abstém

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Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil

RIO - Os países membros da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão ligado à ONU, decidiram sexta-feira, por ampla maioria (25 votos a três, com seis abstenções), censurar o Irã pela construção secreta de uma usina de enriquecimento de urânio. A resolução foi a primeira feita pela AIEA contra o Irã em quatro anos, assinalando a preocupação crescente com o obscuro programa nuclear de Teerã. A decisão da AIEA, na opinião de especialistas em relações internacionais, deixa o Brasil em posição delicada no contexto mundial, já que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em recente encontro com o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, defendeu o direito de o Irã desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos . Na votação de sexta-feira, o Brasil foi um dos seis países que se abstiveram.

O Itamaraty justificou sexta-feira a não-reprovação ao Irã como uma medida favorável à continuação do diálogo entre a república islâmica e o chamado P5+1, grupo que reúne os países membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha. Segundo a assessoria da diplomacia brasileira, a reprovação ao Irã seria uma forma de pressionar o país a aceitar um acordo segundo o qual Teerã enviaria seu urânio para ser enriquecido no exterior, para depois tê-lo de volta em forma de cobustível nuclear. Ainda segundo o Itamaraty, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, teria confidenciado ao presidente Lula durante encontro em Brasília, que a relutância do Irã em aceitar o acordo se devia ao não cumprimento de um acordo semelhante nos anos 70, quando o Irã enviou seu urânio e não o recebeu de volta. O Itamaraty argumenta também que a reprovação ao Irã elimina a possibilidade de um acordo inédito, que ainda tinha chances de acontecer.

Para o professor de relações inernacionais da Universidade de Brasília (UnB), Marcelo Coutinho, o Brasil desafinou em relação ao seu posicionamento sobre o Irã.

A diplomacia brasileira erra no tom, não em buscar um diálogo com Teerã, mas em parecer se solidarizar com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. analisa Coutinho. O erro, aliás, já vem de antes, quando o Brasil reconheceu precipitadamente o resultado das eleições iranianas.

Coutinho cita a intenção brasileira de conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU como um provável motivo de suas recentes posições relacionadas ao Oriente Médio, mas condena a estratégia.

Vamos conseguir votos do Oriente Médio para uma cadeira no Conselho? Vamos. Mas isso não adiantará nada se as nações com poder de veto não endossarem o pedido lembra Coutinho.

Tese simplista

Sobre a questão, o Itamaraty reconhece a intenção de se aproximar do Oriente Médio, mas considera simplista a teoria de que qualquer decisão diplomática estaria baseada na tentativa de apoio para uma vaga no Conselho de Segurança.

Outo analista, o coordenador do curso de relações internacionais do Ibmec no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, José Luiz Niemeyer, considera desconfortável a posição do Brasil no contexto internacional, principalmente depois do resultado da votação de sexta-feira na AIEA.

Já tinha achado estranha a postura do presidente Lula e do ministro Celso Amorim, quando da visita do presidente Ahmadinejad, na segunda-feira. diz Niemeyer. Num evento voltado para a assinatura de acordos sobre outros temas, o presidente iraniano usou como quis o espaço que o Brasil ofereceu para fazer uma espécie de propaganda de seu programa nuclear.

Niemeyer avalia que o Brasil, como signatário do Tratado de Proliferação Nuclear, deveria acompanhar a opinião da maioria das nações da AIEA que votaram pela reprovação ao Irã.

Não estamos falando de política econômica ou de sistema de governo, mas sim de um tema muito mais sensível, que trata da possibilidade de o Irã desenvolver armas atômicas lembra o professor.

O Itamaraty nega que o Brasil esteja isolado sobre a questão, lembrando que outras nações de peso em seus continente, como África do Sul e Egito, também se abstiveram de reprovar o Irã.

EUA dizem que tempo está se esgotando e estudam sanções

A Casa Branca disse sexta-feira que o tempo estava se esgotando para o Irã cumprir as obrigações sobre seu programa nuclear, e que o voto de censura da AIEA à república islâmica mostra o consenso mundial sobre a questão.

O fato de 25 países de todas as partes do mundo votarem a favor da censura mostra a necessidade urgente de o Irã resolver a crescente falta de confiança internacional sobre suas intenções , afirmou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, em um comunicado.

Apesar de China e Rússia, tradicionais aliadas do Irã, terem votado pela reprovação à república islâmica, não ficou claro se os dois países também apoiam a adoção de sanções contra Teerã. Mas autoridades americanas já sinalizam que devem sugerir a aplicação de mediadas contra o governo Ahmadinejad por Washington, caso ele não aceite exigências feitas pela AIEA.

Esperamos que a resolução do conselho reforce a mensagem de que, vocês sabem, estamos comprometidos em elaborar um pacote de consequências se não encontrarmos um parceiro disposto. Esperamos que o Irã tome nota dessa mensagem clara disse sexta-feira uma autoridade americana.

O texto aprovado sexta-feira intima o Irã a suspender imediatamente a construção da nova central de enriquecimento de urânio em uma montanha perto da cidade sagrada de Qom, que teve a existência ocultada até setembro.

Também exige que Teerã informe os objetivos da central e o calendário de realização, além de confirmar que não adotou nenhuma decisão sobre a construção ou autorização de qualquer instalação que não tenha sido informada à AIEA. A resolução será transmitida ao Conselho de Segurança da ONU.

O enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh, descreveu sexta-feira a resolução como uma medida apressada e indevida . O iraniano afirmou ainda que seu país vai pôr fim a seus gestos voluntários de cooperação com a AIEA. Segundo ele, seu país estuda outras opções para o enriquecimento de urânio, como alternativa à proposta do diretor geral da AIEA, Mohamed ElBaradei.

ElBaradei havia proposto que 70% do urânio levemente enriquecido do Irã fosse submetido a um processo de enriquecimento maior na Rússia, para depois ser transformado na França em combustível nuclear destinado a um reator de pesquisa científica em Teerã.

Uma "modalidade alternativa" contemplava um armazenamento intermediário do urânio na Turquia, um país amigo tanto do Irã como das grandes potências, que concordaram com o projeto.