Ahmadinejad diz que eleição no Irã foi limpa e ironiza protestos
REUTERS
LONDRES - Partidários e opositores do presidente linha-dura do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tomaram as ruas de Teerã neste domingo, numa demonstração do conflito político exposto pela disputa eleitoral.
A polícia iraniana no domingo entrou em choque com pessoas em Teerã que protestavam contra a reeleição do presidente, que afirmou que a eleição foi limpa.
O fato de que Teerã e várias outras cidades iranianas vêm sendo sacudidas por distúrbios desde que foram anunciados os resultados da eleição, no sábado, representa a expressão mais nítida em anos de insatisfação com a liderança iraniana.
Dezenas de milhares de partidários de Ahmadinejad, agitando bandeiras, convergiram na praça Vali-e Asr, na capital, antes de um discurso de vitória do homem que venceu a eleição da sexta-feira por uma margem surpreendente de votos.
Partidários do candidato moderado derrotado Mirhossein Mousavi, que qualificou a vitória de Ahmadinejad como "farsa perigosa", se reuniram mais cedo no centro de Teerã, gritando o nome do candidato e atirando pedras contra a polícia, disse uma testemunha da Reuters.
Policiais percorreram a multidão em motocicletas para dispersar os manifestantes. Pelo menos uma pessoa, uma mulher, ficou ferida. Os policiais detiveram por pouco tempo jornalistas que filmavam a violência.
Ahmadinejad relegou a disputa nuclear iraniana ao passado, assinalando que a política nuclear não será modificada em seu segundo mandato, e avisou que qualquer país que ataque o Irã se arrependerá.
- Quem se atreve a atacar o Irã? Quem ousa até mesmo cogitar isso? - disse ele em coletiva de imprensa.
A recusa do Irã em suspender os trabalhos nucleares que o Ocidente suspeita que tenham o objetivo de produzir bombas, acusação que Teerã nega, suscitou comentários sobre possíveis ataques dos EUA ou Israel a instalações nucleares do país.
"Isto não é boa notícia"
A França assinalou sua preocupação com os fatos ocorridos no Irã nas declarações públicas mais contundentes sobre o assunto vindas até agora de uma potência ocidental importante.
- O que está acontecendo no Irã evidentemente não é boa notícia para ninguém, nem para os iranianos nem para a paz e estabilidade no mundo - disse Henri Guaino, um dos assessores mais próximos do presidente francês, Nicolas Sarkozy, à rádio francesa Europe 1.
O chanceler francês Bernard Kouchner disse que a repressão aos opositores está fechando as portas do diálogo.
- Brutalidade e desenvolvimento militar interminável não trarão soluções - disse ele.
Ahmadinejad descreveu a eleição como tendo sido "limpa e saudável" e descartou as queixas dos candidatos derrotados, dizendo que eles alegaram fraude nas eleições apenas porque não as venceram.
Analistas disseram que o resultado da eleição vai decepcionar as potências ocidentais que procuram convencer o quinto maior exportador mundial de petróleo a suspender seus trabalhos nucleares delicados. Obama vem exortando a liderança iraniana a "descerrar seu punho" para possibilitar um novo começo nas relações.
"Cansados de ditadura"
A esposa de Mousavi, Zahra Rahnavard, desmentiu relatos de que seu marido teria sido detido ou colocado em prisão domiciliar.
- O povo iraniano votou para afastar Ahmadinejad, mas esse voto se tornou um voto para consolidar Ahmadinejad. As pessoas estão cansadas de ditadura - disse Rahnavard, que assumiu um papel público de destaque na campanha eleitoral de seu marido, que atraiu dezenas de milhares de partidários às ruas de Teerã.
- As pessoas estão fartas de não ter liberdade de expressão, da inflação alta e do aventureirismo nas relações externas. Foi por isso que quiseram trocar Ahmadinejad - disse ela à Reuters.
Um assessor de Rahnavard afirmou que ela tentou discursar na Universidade de Teerã no domingo, mas foi impedida.
Mousavi rejeitou a vitória de Ahmadinejad, dizendo que foi conseguida por uma fraude eleitoral que vai "comprometer os pilares da República Islâmica e instaurar a tirania".
Autoridades do Ministério do Interior rejeitaram as acusações de fraude, e o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, a autoridade máxima no Irã, exortou os iranianos a apoiarem seu presidente.
