Eleições EUA: às vésperas da 'surpresa de outubro'

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Osmar Freitas Jr., Jornal do Brasil

NOVA YORK - A maioria dos americanos 78%, segundo o instituto de pesquisas Opinion Research acredita que Osama bin Laden vive numa caverna. Entre esta maioria estão republicanos como o presidente George Bush e democratas do porte do candidato Barack Obama. O primeiro afirmou esta convicção em diversas entrevistas coletivas. O segundo mencionou sua opinião firme no discurso de aceitação da nomeação na convenção do partido em Denver. Pesquisas, falsas percepções e o líder radical islâmico já fazem parte do folclore recorrente de eleições presidenciais dos Estados Unidos. E cada um destes quesitos tem causado confusão e previsões antecipadas sobre quem será o próximo ocupante da Casa Branca.

Peguem-se as pesquisas como primeiro foco de embananamento. Barack Obama saiu da convenção partidária com vantagem sobre seu rival republicano John McCain. O percentual deste ganho é um mistério. O Instituto Gallup apontava até sete pontos de vantagem democrata (50% a 43%). A rede CBS exibia vantagem ainda maior: 48% a 40%. Já a CNN vinha com surpreendente 48% para Barack e 47% para McCain. Ou seja: uma sopa de números, onde as disparidades revelam mais a iniquidade dos pesquisadores do que o ânimo dos eleitores.

A média entre todos os institutos é de 3,5 pontos a favor de Obama. Isso antes das coletas de dados durante e após a convenção republicana. Trata-se, portanto, de um empate técnico entre os concorrentes, com números dentro da margem de erro explica John Mercurio, analista de pesquisas do National Journal.

É bom lembrar que são os mesmos institutos de pesquisa que davam McCain como morto há um ano e não registravam grande entusiasmo com Obama.

Só passarei a prestar atenção às pesquisas depois da primeira semana de outubro sentencia o veterano senador democrata Chuck Schumer, de Nova York. Tenho certeza de que vamos receber uma ou mais surpresas mês que vem.

Folclore

A chamada surpresa de outubro começou a fazer parte integral do folclore político americano durante os anos 80, com a revelação de que o então presidente democrata Jimmy Carter iria autorizar uma invasão do Irã para libertar os funcionários da embaixada americana em Teerã, seqüestrados pela Guarda Revolucionária do recém imposto regime islâmico. A aventura acabou em tragédia no deserto. Carter perdeu o cargo. De lá para cá, o caso mais recente ocorreu em 2004, e traz Bin Laden de volta ao foco.

Duas semanas antes das eleições, a disputa entre John Kerry e George Bush parecia bastante parelha, com ligeira vantagem ao desafiante democrata. Foi quando a rede de tevê Al Jazeera colocou no ar um vídeo com discurso do líder da Al Qaeda. A mensagem foi interpretada como desafio, e os operadores políticos da Casa Branca trompetearam que o presidente era o mais habilitado para enfrentar o perigo.

A mudança de comando agora seria perigosa e interpretada como capitulação a Bin Laden disse, então, o marqueteiro político republicano Karl Rove.

A frase ficou famosa.

A percepção generalizada de que Bin Laden mora numa caverna, no entanto, é duvidosa a não ser que a gruta seja amplamente equipada com estúdio de televisão e inclusive com camarim de maquiagem, já que Osama apareceu, da última vez, com a barba tingida.

Aposto bom dinheiro no fato de que Bin Laden vai novamente soltar um de seus vídeos. E não importa o que diga, a percepção será de que ele é contra John McCain, que se mostra um soldado aguerrido. Obama já disse que deseja a retirada das tropas do Iraque e a transferência de divisões para o Afeganistão para acabar com o Talibã e a Al Qaeda. Não é negócio para Bin Laden que Barack vença afirma o analista político Roy Schumaker, do diretório nacional do Partido Democrata.

Mas a caixinha de surpresas também deve chegar ao Partido Republicano. E o remetente poder ser a mitológica Pandora. Em 31 de outubro, quatro dias antes das votações, o senador democrata Hollis French, apontado pelo Legislativo Estadual do Alasca para investigar a governadora Sarah Palin, vai apresentar os resultados de seu trabalho. Ele averigua a possibilidade de Sarah ter cometido um crime ao demitir o Comissário de Segurança Pública, Walt Monegen, que se recusou a cumprir ordem da governadora de afastar o ex-cunhado dela dos quadros da polícia.

Foi por isso que a governadora fez discurso tão anti-mídia na convenção. Os repórteres já estão lotando hotéis no Alasca, procurando colher informações sobre um caso que poderia gerar o impeachment de Sarah diz Tom Brokaw, veterano, respeitado e independente ex-âncora da rede NBC.