Resgate de Betancourt fortalece o Plano Colômbia

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Camila Arêas, Jornal do Brasil

BOGOT - A espetacular operação do Exército colombiano no resgate da ex-refém das Farc Ingrid Betancourt, na quarta-feira, foi 100% colombiana , precisou marcar o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, perante informações sobre o apoio logístico recebido dos Estados Unidos, aliado histórico na luta antidroga. Minutos depois admitiu: Tínhamos ordem de informar o presidente George Bush sobre qualquer operação, então lhe pedimos que nos ajudara a colocar à prova as teorias que tínhamos . O embaixador americano em Bogotá confirmou que a cooperação incluiu troca de inteligência, equipamento e conselhos .

Confidências à parte, o resgate que surpreendeu o mundo não teria sido possível sem oito anos de Plano Colômbia. Destinado a combater a produção e o tráfico de cocaína, o plano de cooperação militar e financeira transformou-se, com a ascensão de Álvaro Uribe à Presidência da Colômbia, também em apoio à luta anti-guerrilheira. A mudança de finalidade o tornou bem sucedido, avaliam analistas, sublinhando que o êxito deve garantir sua continuidade pelo próximo presidente americano, seja ele republicano ou democrata.

Os helicópteros que antes monitoravam áreas de cultivo de coca hoje são veículo para a perseguição guerrilheira observa Cesar Restrepo, investigador da Fundación Seguridad y Democracia. O tipo de cooperação que inclui comunicação e imagem, justamente a utilizada no resgate, era terminantemente proibida quando o Plano Colômbia foi criado por Bill Clinton.

O analista observa que o 11 de Setembro permitiu aos americanos aceitarem a luta contra guerrilhas terroristas na região.

Em Bogotá na mesma quarta-feira do resgate de Ingrid, o candidato republicano à Casa Branca, John McCain, elogiou o esforço de Uribe em estabilizar o país e reduzir o fluxo de drogas que entra nos EUA . Para ele, o Plano Colômbia cortou de forma substancial a oferta de cocaína e aumentou seu preço na rua dos EUA .

Se o democrata Barack Obama ganhar as eleições americanas de novembro, seus conselheiros não esquecerão facilmente que Uribe contribuiu para a campanha do rival observa Gabriel Gasave, do Independent Institute.

Restrepo, no entanto, avalia que Obama não se distanciará da luta contra o terror de Uribe simplesmente porque está tendo êxito.

A libertação de Ingrid favorece os republicanos , pontua Gasave:

Uribe é o único presidente latino a tomar parte nas eleições americanas por um motivo simples: sob outra administração republicana não haverá mudanças severas no Plano Colômbia.

O analista sugere que o líder venezuelano Hugo Chávez influenciará a decisão de Obama sobre o Plano Colômbia:

Se Chávez mantiver a política imperialista na América do Sul, mesmo contra sua vontade, Obama não não correrá o risco de desestabilizar a região com redução de ajuda americana. Mas se a imagem e relevância de Chávez seguirem se esmaecendo, então Obama considerará seriamente cortar o Plano Colômbia.

Guerra perdida

Se 2007 foi o pior ano da história das Farc com a morte de seus principais líderes e a deserção de dezenas de membros, em uma debilidade progressiva e talvez definitiva foi também o pior ano na guerra contra as drogas.

A apreensão de cocaína pelo Exército americano caiu abruptamente de 160 toneladas em 2006 para 100 toneladas em 2007 mas as áreas de cultivo seguem crescendo. O Escritório contra o Delito e a Droga das Nações Unidas revelou, semana passada, que a área cultivada na Colômbia passou de 80 mil hectares em 2006 para 100 mil em 2007. Na região pacífica, cresceu 38%. Em Putamayo, 30%. E o número de lugares envolvidos no cultivo de folha passou de 67 mil para 80 mil.

O Plano Colômbia custa US$ 15 mil anuais para diminuir em apenas 1 kg a oferta de cocaína na fronteira americana. As 500 toneladas enviadas anualmente aos EUA são uma tendência não revertida. Insistente, Uribe disse, há alguns meses, que a luta continuará até que não haja uma só mata de coca na Colômbia .

Em 2007, o número de hectares fumigados ou totalmente erradicados chegou a 220 mil cifra mais alta da história. O golpe, porém, foi compensado com inovações no transporte , diz Alejandro Gaviria, decano da faculdade de economia da Universidad de los Andes:

Hoje já utilizam submarinos que saem da costa colombiana rumo à mexicana e daí são levados via terrestre aos EUA. Transportam até 20 toneladas de cocaína prensada. Seus tripulantes são jovens que embarcam na aventura por US$ 2 mil ou 3 mil. Os defensores do Plano Colômbia subestimaram a capacidade de transformação dos comerciantes de coca. Em uma guerra como essa é preciso mover-se todo o tempo para permanecer no mesmo lugar.

O analista sublinha que a Colômbia deve se preparar para o futuro do narcotráfico depois da derrota das Farc:

O narcotráfico é importante para as Farc, mas as Farc são irrelevantes para o narcotráfico. Esta é a lógica do negócio.