Ex-refém revela cotidiano das Farc e sonho de Ingrid Betancourt
Agência AFP
BOGOTÁ - Os reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), especialmente os três americanos e Ingrid Betancourt, com cidadania colombiana e francesa, são submetidos a duras humilhações, revela em um livro o policial John Frank Pinchao, que há nove meses conseguiu fugir do cativeiro.
Pinchao conta detalhes do cotidiano dos reféns, o sofrimento e o permanente perambular de um acampamento a outro, no livro intitulado 'Mi fuga hacia la libertad', que escreveu após escapar de oito anos de seqüestro.
Na conversas com o policial, Ingrid compartilhava o sonho de ser presidente para acabar com a corrupção, conseguir educação gratutita para todas as crianças colombianas, fundar na selva uma cidade como Brasília para os milhões de desalojados ou construir o metrô em Bogotá.
Um capítulo é dedicado a narrar a frustrada fuga de Betancourt e do ex-congressista Luis Eladio Pérez, que foram recapturados cinco dias mais tarde. Foi, então, que os guerrilheiros decidiram acorrentá-los pela primeira vez. - Primeiro procederam com Lucho (Pérez) e depois com Ingrid, mas ela resistiu - relata.
Logo começaram as represálias contra Betancourt, ex-candidata à presidência colombiana seqüestrada desde fevereiro de 2002 e que faz parte dos 43 reféns que as Farc propõem trocar por 500 rebeldes presos.
- Quando lhe dava vontade de ir ao banheiro à noite chamava os guardas, mas eles se faziam de surdos e ela tinha que esperar. Como era de noite iluminavam o caminho, mas alguns chegavam a apagar a lanterna para que ela nada pudesse ver - conta Pinchao.
Uma noite, prossegue, "Ingrid deu um grito de dor que acordou a todos, pois tropeçou em um pau e caiu sobre uma estaca que perfurou o joelho e causou uma ferida um pouco profunda".
- Sua recuperação durou muito tempo - completa, e Betancourt se viu obrigada a caminhar com dificuldade e devagar, pois " é um local difícil de curar e (a ferida) sempre acabava abrindo novamente".
Pinchao também relata que a política teve que se impor várias vezes ao assédio dos guerrilheiros que a observavam enquanto se banhava nos riachos ou quando fazia uso do sanitário improvisado na selva.
Os rebeldes a vigiavam permanentemente por suas contínuas tentativas de fuga e a proibiram de falar com os três reféns americanos, aos quais Betancourt se dirigia em inglês.
Os americanos Marc Gonsalves, Thomas Howes e Keith Stansell, contratados por seu governo para realizar tarefas contra as drogas do Plano Colômbia, foram detidos pela guerrilha quando o avião em que realizavam a missão caiu numa zona do sul controlada pelas Farc, em fevereiro de 2003.
Os americanos, destaca Pinchao, contaram que o avião em que viajavam sofreu falhas técnicas e aterrissaram de emergência.
- Quando os americanos estavam fora da aeronave, os guerrilheiros os despiram pensando que carregavam algum dispositivo eletrônico, um chip para localização como nos filmes, e os fizeram caminhar nus pela selva - completa.
Depois entregaram a eles botas de borracha, pequenas para seus tamanhos, e, por isso, tiveram que cortá-las "de maneira que os dedos ficaram de fora e terminaram com feridas muito sérias".
O policial não esconde sua admiração por Ingrid Betancourt, que era rebelde com seus captores, mas sempre atenta com os companheiros de cativeiro, como quando atuava de enfermeira com Luis Eladio Pérez ou ensinava francês ou natação a outros.
- Ingrid foi minha luz, meu caminho, meu guia nos momentos em que estava na escuridão - finaliza Pinchao.
