Exército libanês realiza ofensiva contra palestinos
Agência EFE
GAZA - O Exército libanês ataca, há horas, com intensidade o campo de refugiados palestinos de Nahr al-Bared, nas proximidades da cidade libanesa de Trípoli, apenas dois dias após uma tensa trégua.
O envio das tropas coincidiu com declarações do primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, nas quais reiterou que seu Governo está decidido a combater os rebeldes.
- No sétimo aniversário da libertação, não nos renderemos aos terroristas, seja qual for o nome que adotem. Não nos deixaremos aterrorizar pelas explosões ou pelos assassinatos. Estamos decididos a acabar com o grupo armado o mais rápido possível e sem contemplações - disse, referindo-se aos radicais islâmicos sunitas do Fatah al-Islam.
O primeiro grande combate durou 45 minutos e foi o mais intenso desde que, no domingo, as forças armadas libanesas fizeram uma ofensiva contra os extremistas do grupo, supostamente vinculado à rede terrorista Al Qaeda.
Por volta das 20h45 (14h45 de Brasília), carros de combate equipados com metralhadoras de grande calibre abriram fogo contra as os rebeldes no norte do acampamento, onde parecem se concentrar os combates.
Meia hora depois de uma tensa calma, começaram ataques de artilharia pesada e fortes explosões perto da praia, na costa do Mar Mediterrâneo.
Enquanto isso, na estrada paralela à costa, unidades blindadas do Exército libanês tomavam posições no perímetro leste do campo.
Da costa, também podiam ser ouvidos disparos de canhão, o que parece indicar que as autoridades libanesas recorreram, também, à Marinha para atacar os rebeldes sunitas.
Desde o fim de semana, Nahr al-Bared é palco de intensos confrontos entre o Exército libanês e o Fatah al-Islam, que se fortaleceu no emaranhado de becos que compõem o campo de refugiados.
Nas quatro entradas principais para o acampamento, quase não há refugiados fugindo. Agora, são os soldados que bloqueiam os acessos, protegidos atrás de tanques.
- A situação é muito tensa no interior do campo - disse um coronel da unidade especial de incursões terrestres do Exército, posicionado no portão sul.
A saída do sul foi, durante os dois últimos dias, o local de fuga da maioria dos 15 mil habitantes de Nahr al-Bared que puderam escapar dos combates, segundo os cálculos.
- A maioria não quer abandonar suas famílias, seus mortos e feridos - disse Halim al-Firdawi, voluntário do Crescente Vermelho libanês.
A situação é mais perigosa no portão norte, onde a tensa calma que reinou por toda a manhã foi interrompida, muitas vezes, por trocas de tiros de armas leves.
Segundo fontes de segurança libanesas, calcula-se que, até o início da tarde de hoje, cerca de 150 milicianos do Fatah al-Islam ainda permaneciam em Nahr al-Bared, fortemente armados com fuzis M-16, lança-granadas tipo ARPG e uma quantidade indeterminada de munição.
Também permaneciam os milicianos regulares palestinos que, segundo o coronel posicionado na porta sul, 'não apóiam os terroristas, mas também não colaboram' com o Exército libanês.
Devido ao acordo de 1969, as forças armadas libanesas têm restringido o acesso aos 12 acampamentos de refugiados palestinos que vivem no Líbano. A segurança desses campos é de responsabilidade quase exclusiva das milícias palestinas.
Durante toda a quarta-feira, representantes do Governo de Beirute contataram autoridades palestinas no Líbano, para explorar as possibilidades e as conseqüências da autorização da intervenção do Exército no acampamento.
Legalmente, não existe nenhum impedimento desde que o Governo emendou o acordo tácito assinado com as milícias palestinas, em 1987.
No entanto, temia-se que uma ação de grande porte representasse um perigoso precedente e gerasse novos focos de insurreição nos outros acampamentos, nos quais estão abrigados pequenos grupos jihadistas (que promovem a chamada 'guerra santa") de ideologia similar à do Fatah al-Islam.
Na quarta-feira, o ministro da Defesa libanês, Elias Murr, deu um ultimato aos insurgentes: ou se rendiam, ou seriam mortos.
De dentro de Nahr al-Bared, a resposta foi unânime: lutar incansavelmente, e tentar incentivar a insurreição dos outros acampamentos.
Enquanto isso, no campo de refugiados vizinho, de Badawi, a principal preocupação é hospedar e atender as mais de 3 mil famílias obrigadas a abandonar suas casas.
Voluntários da Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Refugiados Palestinos (UNRWA) e do Crescente Vermelho libanês se esforçam para fornecer alojamento, comida e roupa aos desabrigados.
Alguns refugiados conseguem lugar nas pequenas casas de parentes e amigos, enquanto os demais lotam a escola central e as sedes das agências humanitárias.
Segundo diversas fontes, os combates já causaram, até esta noite, cerca de cem mortes. Entre as vítimas estão soldados, milicianos e civis.
O subsecretário para Assuntos Políticos da ONU, Lynn Pascoe, disse que o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, enviará uma missão de análise à fronteira do Líbano com a Síria, para avaliar a situação da transferência de armas entre ambos os países.
A declaração foi feita na reunião do Conselho de Segurança, na qual se debateu a escalada da violência no Oriente Médio.
Pascoe afirmou, ainda, que os conflitos entre o Exército libanês e os milicianos do Fatah al-Islam, em Nahr al-Bared, não impedirão o avanço na criação de um tribunal especial no Líbano.
Os Estados Unidos e a França têm intenção de apresentar, formalmente, amanhã, um projeto de resolução para estabelecer esse tribunal especial, que julgaria os autores da morte do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri e outros assassinatos políticos.
