Escândalo atinge ministro e vice-presidente da Colômbia
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MEDELLÍN - Um escândalo que vincula alguns aliados do presidente Álvaro Uribe aos paramilitares da Colômbia atingiu na terça-feira o ministro da Defesa e o vice-presidente do país, com quem um ex-comandante de milícia disse ter se encontrado antes da desmobilização do seu grupo ilegal, segundo pessoas que acompanharam seu depoimento.
A suposta associação com líderes paramilitares de direita, acusados de graves atrocidades nas últimas duas décadas, já levou à prisão de 13 parlamentares.
Salvatore Mancuso, ex-líder das Autodefesas Unidas da Colômbia, o maior grupo paramilitar, hoje detido, fez as acusações durante depoimento como parte do acordo judicial que lhe garantirá penas mais brandas em troca de confissões.
Jornalistas foram impedidos de acompanhar a audiência na sede do Ministério Público em Medellín, mas fontes judiciais e testemunhas representando as vítimas disseram ter ouvido relatos de encontros do réu com Francisco Santos (hoje vice-presidente) e Juan Manuel Santos (atual ministro da Defesa) em 1996 e 97, antes, portanto, do governo Uribe.
Francisco e Juan Manuel Santos são primos, pertencentes a uma das famílias mais tradicionais da Colômbia. Na época dos supostos encontros, o hoje vice-presidente era colunista no jornal El Tiempo, pertencente à família.
Segundo Mancuso, Francisco Santos discutiu com os comandantes paramilitares a idéia de criar uma milícia para combater guerrilheiros na região de Bogotá, de acordo com relato feito à Reuters pelo advogado Carlos Iván Lopera, representante das vítimas.
- Mancuso disse que Pacho (Francisco) Santos foi apresentado a um projeto contra-subversivo em três ocasiões, e parecia favorável a ele, disse Lopera.
Já Juan Manuel Santos teria conversado com os paramilitares sobre uma aliança para derrotar o então presidente Ernesto Samper (1994-98), que era acusado de receber financiamento eleitoral de narcotraficantes.
Em um discurso no final da noite de terça-feira, Uribe não fez referência às acusações. Uma porta-voz da vice-presidência disse que Francisco Santos não iria comentar. Já o ministro da Defesa afirmou, também na noite de terça, que encontrou paramilitares e guerrilheiros em 1997 para tentar mediar a paz, e que os fatos estariam bem documentados.
- Se essa é a 'verdade' que Mancuso quer revelar, então as pessoas vão ficar desapontadas, disse Santos em nota.
Os paramilitares surgiram na década de 1980, sob patrocínio de grandes fazendeiros, como reação às guerrilhas marxistas onde a presença do Estado era fraca. Há amplas suspeitas de ligação dos paramilitares com as Forças Armadas, e temores de que as milícias tenham mantido suas estruturas criminais mesmo depois da desmobilização.
Mancuso, cujo depoimento começou na terça-feira, prometeu revelar os nomes de todos os políticos, empresários, oficiais militares e até empresas multinacionais que teriam colaborado com as Autodefesas.
A empresa norte-americana Chiquita Brands, produtora de bananas, fez recentemente um acordo de 25 milhões de dólares nos EUA depois de admitir que sua subsidiária na Colômbia contratou paramilitares para fornecer proteção.
