Guerras e conflitos mataram 269 profissionais da imprensa
Agência EFE
MEDELLÍN - As guerras e os conflitos violentos ocorridos em todo o mundo nos últimos dez anos foram responsáveis pela morte de 269 jornalistas e profissionais de imprensa, informou nesta sexta-feira o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
- Dos 1.000, um quarto morreu em áreas de conflito-, explicou a porta-voz do CICV na cidade suíça de Genebra, Antonella Notari, em uma análise assustadora sobre o custo da cobertura de confrontos internos e internacionais.
Em um seminário sobre liberdade de imprensa, segurança de jornalistas e impunidade organizado na cidade colombiana de Medellín pela Unesco e pela Fundação Guillermo Calo, a porta-voz do CICV observou que, das 269 vítimas de guerras e conflitos, apenas 15 andavam com seguranças.
Do total, 167 morreram enquanto cobriam guerras internacionais como as do Iraque ou do Afeganistão, e 102 nos conflitos civis como os da Somália, disse Notari, que baseou sua análise nos registros de organizações como Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e a Associação Mundial de Jornais (WAN, em inglês).
Independentemente da segurança, - cobrir a guerra é um trabalho muito arriscado que expõe a vida e a saúde do pessoal de imprensa-, disse Notari, que questionou em até que ponto a neutralidade pode ser mantida com a proteção por conta de uma das partes em conflito.
É um assunto que, para o dinamarquês Lasse Ellegaard, editor da publicação 'Politiken', deve ser resolvido em favor da livre função jornalística, ou seja, com a rejeição à oferta de proteção.
- Com o tempo, a única proteção com a qual podemos contar é com nós mesmos e nosso público, que acredita em nós-, afirmou Ellegaard ao responder à preocupação de como enfrentar as ameaças crescentes aos profissionais de imprensa.
O dinamarquês também defendeu que os repórteres devem mudar seu comportamento e assumir 'uma independência real, negar qualquer vínculo em troca de proteção e deixar de dormir com o inimigo'.
A postura diante desta preocupação é difícil para casos como o da Somália, em que 16 ataques foram perpetrados contra a imprensa nos quatro primeiros meses deste ano - 40% do total de 2006.
Segundo o secretário-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas Somalis (Sunoj), Omar Farouk Osman, - o jornalismo é uma profissão em perigo de extinção, devido à guerra e à insegurança generalizada na região.
- É uma realidade que levou os jornalistas da Somália a se autocensurar para se proteger-, disse Farouk.
Sua experiência é similar à vivida por muitos na Colômbia, país imerso num longo conflito armado interno e em uma ameaça constante do narcotráfico que, na opinião do Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), deixou como seqüela o medo.
- O medo não acaba do dia para a noite, e muitos jornalistas colombianos, especialmente em zonas de conflitos, ainda trabalham amedrontados-, disse à agência Efe o diretor-executivo do CPJ, o americano Joel Simon.
É um medo que se transformou em autocensura, segundo Simon, ao observar que em alguns casos atinge tal nível que os jornalistas, ao receber uma ameaça, 'deixam de noticiar os fatos'.
Nos campos onde atuam os correspondentes de guerra, a liberdade de imprensa se perde, às vezes, com a vida, como demonstra outro estudo explicado pelo CPJ em Medellín, sede de uma conferência internacional de dois dias que foi inaugurada nesta quinta-feira, por causa do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
A organização independente informou que, dos 580 jornalistas que morreram no mundo entre janeiro de 2002 e agosto de 2006, 18,4% perderam a vida em meio a combates ou tiroteios, e 10% enquanto realizavam 'missões perigosas'.
O risco é tão alto que o CICV oferece aos jornalistas que atuam em áreas de risco um 'guia de segurança' para permanecerem vivos. O Exército britânico, por exemplo, adotou um livro sobre o tratamento que os profissionais de imprensa devem receber no campo de batalha.
