Especulações sobre alianças marcam corrida ao Palácio do Eliseu
Agência EFE
PARIS - As especulações sobre possíveis alianças foram o centro das atenções nesta sexta-feira na campanha dos candidatos à Presidência da França, devido a uma eventual aproximação entre o conservador Nicolas Sarkozy e o ultradireitista Jean-Marie Le Pen, e entre a socialista Ségolène Royal e o centrista François Bayrou.
O jogo de alianças entrou completamente no debate eleitoral, apesar de ainda faltarem nove dias para o primeiro turno das eleições presidenciais e 23 dias para o segundo e definitivo turno, que deve ocorrer em 6 de maio, além de outros dois meses para o pleito legislativo.
Tudo começou quando um dos mais próximos colaboradores de Sarkozy defendeu, em entrevista ao jornal 'Le Figaro', que 60 dos 577 deputados da Assembléia Nacional sejam escolhidos pelo sistema proporcional, e o resto, pelo majoritário, como atualmente.
Após esta proposta, que abriria as portas da câmara baixa à Frente Nacional (FN) de Le Pen, Royal vislumbrou o começo de uma negociação, enquanto Bayrou criticou os 'deslizes controlados e múltiplos' de Sarkozy para 'tentar se aproximar' da extrema direita.
No entanto, esta reforma da votação expressada pelo vice-ministro para as Coletividades Territoriais, Brice Hortefeux - 'braço direito' de Sarkozy -, são simples 'migalhas de fim de campanha', segundo Le Pen, que tenta pela quinta vez chegar ao Palácio do Eliseu.
Marine Le Pen - filha do líder da FN - foi mais crítica, ao considerar que a proposta de Hortefeux é um desprezo aos eleitores da Frente Nacional, aos quais se pretende 'bajular com meia dúzia de cadeiras'.
A introdução de uma dose de proporcionalidade nas eleições legislativas francesas (convocadas para os dias 10 e 17 de junho) é uma das principais reivindicações da FN.
Dois porta-vozes de Sarkozy afirmaram em comunicado que a declaração de Hortefeux 'expressa apenas uma reflexão pessoal', e "não compromete de nenhuma maneira o candidato'.
A proposta é vista por alguns analistas como um afago de Sarkozy ao eleitorado de Le Pen, ao qual tenta seduzir abertamente com seu discurso sobre nação e imigração. Os dois vêm protagonizando um curioso 'jogo de gato e rato', com ataques verbais e elogios de ambas as partes.
O ex-primeiro-ministro conservador Jean-Pierre Raffarin denunciou o que qualificou de 'estratégia perversa' de 'Chapeuzinho Vermelho'
de Le Pen para roubar eleitores de Sarkozy.
Em meio a essa confusão, está a carta divulgada hoje pelo Movimento dos Jovens Socialistas (MJS) aos 'indecisos e, principalmente, aos eleitores da Frente Nacional' para que votem em Royal, pela 'mudança que representa'.
Royal deparou-se hoje com a surpresa de que seus aliados pediam uma aliança com Bayrou para vencer a 'coalizão' de Sarkozy - favorito nas intenções de voto, segundo as pesquisas - e Le Pen - em quarto lugar.
A idéia de uma aliança 'sincera e construtiva' entre Royal e Bayrou partiu do ex-primeiro-ministro socialista Michel Rocard.
Caso Sarkozy seja eleito presidente da França, 'dentro de algumas semanas (6 de maio), não teremos nenhuma desculpa. A (governante e conservadora) UMP vencerá as eleições legislativas e, durante cinco anos, a França sofrerá', escreveu Rocard em artigo publicado hoje pelo jornal 'Le Monde'.
Por isso, Rocard fez um apelo a Royal e Bayrou (segundo e terceiro nas intenções de voto) para que façam uma 'aliança' antes do primeiro turno das eleições presidenciais, em 22 de abril.
Royal recusou a proposta e, diante da insistência dos jornalistas, disse que se preocupa 'com os problemas verdadeiros'.
"Inconcebível' e 'completamente absurda' foram as palavras que o primeiro-secretário do Partido Socialista (PS), François Hollande, e o conselheiro especial de Royal, Jack Lang, usaram para qualificar a proposta.
Bayrou - favorável à idéia, porque o apelo de Rocard está de acordo com sua estratégia - disse que a proposta do eurodeputado socialista é 'uma notícia muito importante', e mostra que 'isso está se mexendo'.
Em seu artigo, Rocard não diz como deveria ser a aliança, mas insiste em que socialistas, centristas e verdes podem constituir uma nova maioria na França.
Segundo a candidata dos Verdes, Dominique Voynet, Rocard 'está errado' ao propor uma aliança antes do primeiro turno.
