Mulheres violentadas morrem sem assistência na Costa do Marfim
Agência EFE
JOHANESBURGO - Centenas de mulheres vítimas de abusos sexuais na Costa do Marfim sofrem as doenças derivadas dos estupros sem poder receber tratamento médico e muitas delas morrem no total desamparo, denunciou hoje a Anistia Internacional (AI).
Apesar disso, 'nenhum dos autores destes crimes de guerra foi julgado', afirmou hoje à agência Efe, em declarações por telefone, Salvatore Sagues, o autor do relatório 'Costa do Marfim: mulheres e meninas vítimas esquecidas do conflito'.
A dimensão dos fatos, que é subestimada, exige uma resposta urgente, já que não só as humilhações continuam sendo cometidas, mas as conseqüências das que já ocorreram provocam resultados catastróficos, acrescentou o autor do estudo.
Depois do fracassado golpe de Estado de 2002, a Costa do Marfim entrou na pior crise de sua história pós-colonial. Desde então, o país está dividido em dois: o sul sob o comando do Governo e o norte controlado por rebeldes das Forças Novas.
Sagues contou que o estupro é usado como arma de guerra para humilhar o inimigo e por isso mulheres de qualquer idade são alvos dos combatentes.
"Temos testemunhos de meninas menores de 10 anos e de mulheres maiores de 60 que nos contaram que os atos foram cometidos na frente do marido ou de outros membros da família, e em algumas ocasiões na presença dos cadáveres dos parentes recém-assassinados', contou.
No relatório, a AI adverte que os abusos sexuais se transformaram em uma prática generalizada que é cometida com absoluta impunidade por todos os grupos armados e ressalta que nenhum dos supostos agressores sequer foi julgado.
"O uso da violência sexual como arma de guerra é um fenômeno novo na Costa do Marfim do qual estão subvalorizando as conseqüências', disse Sagues.
Embora as práticas tenham começado em 2000, foi em 2002, com o início do conflito, que se estenderam.
A AI responsabiliza igualmente os combatentes de ambos os grupos por usar a mulher como objeto para a humilhação e, por isso, Sagues pede que 'se faça uma frente conjunta ao problema comum, que vai além do conflito atual e afeta todo o país'.
Embora os casos tenham sido registrados tanto em cidades como em zonas rurais, nos povoados do oeste do país foi encontrado um foco de extrema gravidade. 'Ali os mercenários liberianos que apóiam os dois grupos fizeram estragos, sobretudo entre 2002 e 2003', afirmou Sagues.
O autor do relatório, elaborado a partir de consultas com mais de 60 mulheres entre 2005 e 2006, pede que se comece a julgar os culpados para mostrar aos soldados que eles não dispõem de impunidade. Além disso, pede que se dê tratamento urgente para as vítimas, que freqüentemente cuidam sozinhas das crianças e não possuem recursos para tratar da aids e outras doenças que contraíram dos estupradores.
A AI não dispõe de números exatos em função dos deslocamentos causados pela guerra e que dificultam o controle da população, mas assegura que podem chegar a milhares de casos e que os abusos pioraram substancialmente a crise de HIV na Costa do Marfim.
Apesar dos líderes políticos não terem mostrado nenhum indício de reação diante do problema dos estupros, Sagues acredita que a atual situação política vivida no país pode contribuir para mudar a atitude passiva.
