Ex-negociadores criticam ambivalência dos EUA em Doha
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WASHINGTON - As negociações comerciais mundiais avançam muito pouco em parte porque os poderosos interesses agrícolas e industriais norte-americanos ainda não se convenceram de que têm muito a ganhar com um acordo, disseram ex-negociadores dos EUA na quarta-feira.
- Se não houver o suficiente na mesa, não há como atrair essas forças nos EUA e em outros lugares para apoiar uma rodada comercial - disse Mickey Kantor, que foi o principal negociador comercial dos EUA entre 1993 e 96.
A antecessora dele, Carla Hills (1989-93), concordou que é difícil entusiasmar as grandes empresas, mas afirmou que é crucial fazer isso para concluir a chamada Rodada Doha das negociações comerciais globais.
- Precisamos galvanizar a indústria na direção do comércio. Há um acordo aí para ser feito, mas não temos gravidade suficiente no momento para vendê-lo - afirmou Hills, que participou com outros ex-negociadores de um debate no Fundo Carnegie para a Paz Internacional, em Washington.
A Rodada Doha foi suspensa em julho, principalmente por discordâncias em questões agrícolas entre os principais participantes, mas recentemente surgiram sinais de que ela poderia ser retomada. Os ex-negociadores norte-americanos, porém, se mostraram cautelosos.
Hills disse que a perspectiva da atual rodada fica ainda mais complicada pela postura dos países em desenvolvimento, que sentem que não conseguiram bons resultados em negociações anteriores, o que os torna relutantes em fazer concessões agora.
Clayton Yeuttner, que além de negociador foi secretário de Agricultura, disse que a Rodada Doha vem sendo prejudicada pelo 'bizarro exercício' de negociar cortes tarifários sem uma discussão de produtos específicos.
Até agora não houve muito compromisso por parte de ninguém com uma liberalização agrícola no mundo real, e isso tem de mudar - afirmou.
Os ex-negociadores também salientaram a importância de angariar apoio parlamentar, de republicanos e democratas, às negociações comerciais - o que pode ser difícil devido ao atual clima político pós-eleitoral.
Muitos acham que Susan Schwab, a atual representante comercial, terá dificuldades em convencer deputados e senadores a renovarem a Autoridade de Promoção Comercial do presidente George W. Bush, que permite a ele negociar acordos que não podem ser emendados pelo Congresso, apenas rejeitados ou aprovados na íntegra.
Alguns participantes acham que será mais fácil renovar a Autoridade de Promoção Comercial se ela valer apenas para a Rodada Doha, e não para discussões bilaterais.
Hills afirmou que um bom argumento para convencer os céticos é o objetivo declarado da Rodada Doha de integrar os países pobres na economia mundial e ajudá-los a combater a pobreza por meio do comércio.
- Não é só que podemos vender mais, é também que podemos aliviar a pobreza, eliminar uma diferença de cinco vezes nos subsídios agrícolas e conter o fracasso de Estados - afirmou.
