Brasil terá centro humanitário

Opositor a Maduro anuncia criação de ponto de envio de ajuda para Venezuela em Roraima

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Caminhões com ajuda humanitária dos EUA chegam a ponte Tienditas, em Cúcuta, na fronteira da Colômbia com a Venezuela

O Brasil aceitou abrir no estado de Roraima um centro de armazenamento de ajuda humanitária para a Venezuela, informou ontem, em Brasília, Lester Toledo, funcionário designado pelo parlamentar Juan Guaidó para tratar a questão de socorro internacional. O deputado opositor, autoproclamado presidente venezuelano, é reconhecido por cerca de 40 países.

"Podemos dizer oficialmente que será o segundo grande centro de armazenamento depois do de Cúcuta (na Colômbia), e que o Brasil se soma a essa coalizão" que pressiona pela saída do presidente Nicolás Maduro, afirmou Toledo após ser recebido pelo chanceler Ernesto Araújo.

A declaração de Toledo foi feita no Palácio do Itamaraty, após cerimônia na qual a o governo brasileiro reconheceu a advogada e professora venezuelana Maria Teresa Belandria com representante diplomática da Venezuela no Brasil. Ela foi indicada para o posto por Guaidó. Em dezembro de 2017, o embaixador da Venezuela em Brasilia, indicado por Maduro, foi expulso pelo governo brasileiro.

Toledo disse ainda que nos próximos dias vai visitar Roraima, "para ver onde fica o centro de armazenamento", de modo que "a partir da próxima semana comecem a chegar as primeiras toneladas de ajuda".

"Há dezenas de países da região, do Grupo Lima e da Europa que já estão à espera para trazer as primeiras toneladas de ajuda, suprimentos médicos, alimentos", afirmou o delegado enviado por Guaidó.

Em Cúcuta, alimentos e medicamentos enviados pelos Estados Unidos permanecem desde quinta-feira em um centro de armazenamento perto da ponte fronteiriça Tienditas, bloqueada pelo exército venezuelano com dois contêineres e um caminhão-tanque para que não possa entrar em território do país.

Quando perguntado sobre como a ajuda humanitária poderia ser encaminhada do Brasil à Venezuela, Toledo disse que a equipe de Guaidó aposta no apoio dos militares e das "pessoas", sejam quais forem as ordens de Maduro.

"Os soldados (venezuelanos) esperam apenas uma ordem. Eles sabem que essa ajuda humanitária é alimento para crianças, remédios para os doentes", afirmou Toledo.

"Temos recebido muito bons sinais de dentro Venezuela, da igreja, das ONGs, para a distribuição interna. Como vai entrar? Com as pessoas, com o acompanhamento do povo que quer mudanças", declarou.

Belandria, por sua vez, disse que o chanceler Ernesto Araújo iria pessoalmente ao centro, uma vez instalado, "para mostrar não só o apoio através do envio de toneladas (de ajuda), mas apoio político". Brasil e Venezuela compartilham uma fronteira de cerca de 2.200 quilômetros. Nos últimos três anos, mais de 150 mil venezuelanos entraram no Brasil fugindo da hiperinflação, da escassez e da violência. Somente o estado de Roraima recebeu 75.500 pedidos de regularização desde 2015.

Enquanto isso, na Venezuela, os opositores de Maduro, convocados por Guaidó, preparam-se para realizar uma grande marcha hoje para exigir que os militares ignorem a ordem do presidente de impedir a entrada da ajuda humanitária. O parlamentar convocou manifestações em todo o país, que coincidem com a celebração do Dia da Juventude na Venezuela. "Vamos nos mobilizar em todo o país para conseguir a entrada da ajuda humanitária", disse o líder opositor. "Vamos continuar mobilizados para salvar vidas com a ajuda", acrescentou.

Apesar da pressão, a cúpula militar continua expressando "lealdade absoluta" a Maduro. No domingo, as forças armadas iniciaram cinco dias de exercícios em todo o país para enfrentar uma eventual invasão dos EUA.