Polêmica: um ensaio sobre o momento atual em que vive a moda brasileira
Consultor de moda, Alexandre Schnabl compara mercado de moda com filmes-catástrofe de Hollywood
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A maré não está mesmo para peixe. A recessão impera e o governo brasileiro derrapou na inflação. Entre sustos dignos de Evil Dead e tsunamis econômicos, cada um aposta no que pode e salve-se quem puder. Algumas marcas deixaram de desfilar nesta temporada de lançamentos Primavera-Verão das semanas de moda. As criações exibidas nas passarelas de Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço fizeram falta na São Paulo Fashion Week. Assim como a exuberância étnico-celebration do esfuziante André Lima e a elegância cool da marca Maria Bonita. E, em plena semana de lançamentos, a morte de Clô Orozco, da Huis Clos, verteu genuínas lágrimas no povo da moda. Sem ela, Andrea Saletto e Alice Tapajós, onde irá parar o estilo feito com cérebro, mas dotado do doce charme da burguesia bem nascida? Como se fosse uma última integrante do grupo de feiticeiras celtas extirpado por São Patrício na Inglaterra medieval, seria Andrea Marques o último baluarte dessa moda pontual, limpa e sem excessos? Ou, quem sabe, a mineira Sonia Pinto?
O número de desfiles escasseou nesta edição do Minas Trend. Muitos sentiram falta de Graça Ottoni, da Printing, Jardin ou Mary Design nos fashion shows. O Fashion Rio já perdeu gente de peso como Santa Ephigenia, Mara Mac, Maria Bonita Extra, Cavendish, Isabela Capeto, Melk Z-Da, Totem, Máxime Perelmuter e Redley. Isso sem falar em marcas expressivas, cada qual para seu público, que também encerraram essas atividades, como Walter Rodrigues e Carlos Tufvesson.
Ainda assim, a moda resiste e luta, como sobrevivente de um Poseidon recém-emborcado. Faz sentido a comparação. Assim como no enredo dos filmes-catástrofe, onde um punhado de teimosos sobreviventes insiste em sobreviver a uma inesperada intempérie, fosse ela uma onda gigante, uma avalanche ou um violento incêndio em um arranha-céu, a indústria hollywoodiana setentista se sacudia, tentando sobreviver à concorrência da televisão, aos novos comportamentos sociais e à crise do petróleo. Executivos da indústria peregrinavam rumo aos sindicatos dos atores aposentados para arrematar antigos astros no atacado, tentando conter a crise de mercado e amealhar uns trocados. Dessa forma, ficou famosa a tática de contratar um ator de peso, no auge e em plena forma, para estrelar este tipo de filme-produto, contracenando com um combo de velhas estrelas resgatadas do limbo hollywoodiano por uma bagatela. Recurso mais econômico e emocional do que esse, impossível. E eficaz, é claro!
Em 1972, um recém oscarizado Gene Hackman conduziu à antiga prataria dos estúdios, como Shelley Winters, Ernest Borgnine e Roddy MacDowall, pelos corredores inundados do transatlântico em O Destino do Poseidon. E dois anos depois, no clássico O Inferno na Torre, os bonitões-celebrities Paul Newman e Steve McQueen tentavam apagar o incêndio na torre de vidro e salvar inocentes cujas carreiras já haviam sido há muito carbonizadas: Fred Astaire, William Holden e Jennifer Jones.
De certa forma, não é isso que agora está acontecendo na moda nacional? Uma implacável tentativa de sobreviver às catástrofes na utópica e incansável busca pelo desenvolvimento de uma boa coleção, composta de produtos atraentes a preços convidativos? Ou através de planejadas jogadas de marketing?
A contratação de globetes para apimentar a passarela de um desfile ou atrair, como vaga-lumes, os flashes para a primeira fila não equivale à escalação cinematográfica de velhos astros de apelo afetivo, obrigando o público a gastar uns tostões nas salas de cinema? O maravilhoso casting de Lenny Niemeyer, na última quarta-feira, não segue esses mesmos parâmetros de contratação de elencos extraordinários, mas do universo fashion, introduzindo sua espetacular moda-praia dentro dos cânones da Sociedade do Espetáculo?
Vejamos: Shirley Mallmann, Ana Beatriz Barros, Renata Kuerten, Viviane Orth, Natália Zambiasi, Fabiana Semprebom, Daiane Conterato, Flavia Lucini, Solange Wilvert, Luana Teifke, Alicia Kuczman, Lovani Pinow, Mariana Coldebella, Ghisela Rein, Marcelia Fresz, Barbara Fialho, Michelli Provensi, Paula Mulazani, Drielly Oliveira... Ufa!
O grande público pode até não saber o nome de todas essas beldades, mas conhece seus rostos através da mídia. E a imprensa especializada e o público fashionista sabem quem é quem, formando opinião assim como uma platéia de cinéfilos.
O uso de famosos nas passarelas de grifes, como Colcci, Animale, Coca-Cola Clothing e TNG, não reforça essa tendência de investir pesado em imagem? Na tentativa de sobreviver a um navio que afunda ou a um prédio em chamas, quanto deve ter sido gasto na contratação de gente do naipe de Isabel Goulart, Paul Walker, Karlie Kloss, Bruna Marquezine, Cléo Pires, Domingos Montagner e Roberta Rodrigues?
Não é o que, em outra esfera, Cadinho Bräutigam faz por sua Auslander ao contratar a modelo it-girl Anja Kostantinova para abrir e fechar o último desfile do Fashion Rio, ontem à noite, após estrelar campanha inspirada no Coachella Festival?
A Reserva, em estratégia de marketing bem pensada também acendeu um alerta sobre como sobreviver ao cinema-catástrofe em que a indústria da moda tenta driblar.
