Fashion Rio sobe o Alemão e pega o bonde das popozudas globais pacificadas

Balanço geral: olhar sobre o Verão 2014 do minimalismo, anos 90, preto & branco, Pop Art e celebs

Por Com Pedro Willmersdorf

Confira também nosso blog

Durante todo o Fashion Rio, você acompanhou aqui, em dezenas de notas, o olhar da minha coluna sobre o evento de moda Primavera-Verão 2014. E que tal a gente dar espaço também para outro ponto de vista? A bandeira da democracia da moda não foi levantada? Então vamos ao um bate-bola tipo Heloisa Tolipan e o consultor de moda Alexandre Schnabl, amigo da coluna. Vem com a gente conferir o ponto de vista dele. 

Terminou na noite de sexta-feira a edição Primavera-Verão 2014 do Fashion Rio na Marina da Glória. Nem tudo são flores. A crise global come solta na indústria da moda, o mercado nacional está em recessão e a estrutura dos eventos de moda nacionais sofre consequências. Mas, se faltam flores (inclusive nas passarelas, onde o tema costuma ser recorrente nas temporadas de verão), as grifes compensaram com criatividade, ressuscitando a Pop Art dos anos 70, estampando bichos, viajando por quatro cantos, evocando impérios tropicais ou imprimindo maxi poás em cenários minimalistas. Apesar disso, muitas grifes fizeram bonito, provando que o Brasil tem garra e não cede fácil a pressões da economia de mercado. E, no frigir dos ovos, em uma temporada onde até o número de celebridades nas plateias escasseou, não houve outra solução a não ser esta: a moda subiu o morro, pegou carona no teleférico do Complexo do Alemão e levou um punhado de astros de Salve Jorge para sacudir os quadris ao lado das tops.

Sim, a TNG, famosa por contratar famosos, convidou um trio parada dura para animar a rapaziada. Entre looks bacanas inspirados em festivais indianos, um tímido Domingos Montagner – o bonitão Ziah da novela das 21h – desfilou junto a duas corpulentas beldades da atração, Cleo Pires e Roberta Rodrigues. Esta inclusive, nem abriu mão do bico de marrenta de sua personagem na trama (a piriguete Maria Vanúbia), e riscou a passarela pronta a roubar maridos, como se os namorados das tops fossem o Pescoço. Apesar de tudo, boas soluções foram mostradas na coleção, como calças-jodhpurs para os homens, sneakers coloridões, vestidos justinhos com shape de surfista e estampinhas étnicas em looks para ambos os sexos. Curtimos o macacão soltinho usado pela modelo Drielly Oliveira.

 No dia seguinte, foi a vez da Cola Cola Clothing trazer a toda boa Bruna Marquezine para sua passarela. Entre grafismos bacanas, looks destroy com levada grunge e peças em colorido ácido, Bruna deve ter causado ciúme ao seu namorado, o craque Neymar, quando exibiu suas curvas avantajadas para uma platéia animada. Não faltaram gritinhos e assovios. Mesmo com esse recurso midiático, a Coca-Cola fez bonito e, mais uma vez, apresentou coleção que vai além da necessidade de fazer merchandising, com ótimas apostas para a moda jovem.

 E, por falar em celebrities, a Iódice (que migrou da SPFW pelo Fashion Rio nesta edição), contou com a presença de Giovana Antonelli, a delegada Helô de Salve Jorge, sentada na plateia ao lado da primeira-nora da grife, Adriane Galisteu, e do make up artist Ton Reis. Giovanna, aliás, está fazendo escola, tal a quantidade de endinheiradas que circularam pelo Fashion Rio portando a capa de celular-soco inglês usada pela sua personagem na novela. E sua presença, claro, sempre ilumina qualquer platéia. Valdemar Iódice, empresário que conhece como ninguém o gosto da mulher brasileira, sempre faz ótimos cocktail dresses, mas, dessa vez, seu desfile foi mais inspiradíssimo que de costume, talvez um dos melhores desta edição. A brisa marinha deve ter feito bem a ele que, com loja recém-aberta no Rio Design Barra, abusou do em preto & branco e cores clarinhas em peças minimalistas com modelagem impecável e zippers destacados.

 Assim como a Iódice, a Blue Man apresentou uma das melhores coleções de verão, trazendo como tema um império tropical, misturando estampas de azulejos portugueses, brasões com efígies da família real portuguesa e elementos barrocos com a exuberância da fauna e flora brasileiras. Misturar estampas faz parte do vocabulário fashion do próximo verão e a Blue Man soube fazer bonito nesse campo, mas, antes de falar de moda, é importante frisar que o duo de estilistas Thomaz Azulay - filho de Simon, da lendária Yes, Brazil - e sua prima Sharon - filha de David, criador da marca  - provou que tem sangue azulado e que, como bons herdeiros de uma dinastia fashion, entende do riscado.

Herança genuína como nas Casas Imperiais européias. O desfile começou com Daiane Conterato em maiô com estampa imperial e fechou com Ana Beatriz Barros em coordenado de bodysuit e pranchão, revelando que o mix característico desta temporada também influencia o casting. Entre tantas belezas variadas, sobressaíram a jaquetinha cropped em neoprene estampado de onça com flores e coordenada com biquini, looks de praia confeciconados em jeans desfiado e muitos badulaques nos pescoços e braços, típicos das misturinhas que costumam aparecer no styling de Daniel Ueda.

No quesito praia, Lenny Niemeyer mais uma vez arrasou, mostrando coleção criada a partir do minimalismo e estrelada por casting all star. Preto, branco e cáqui predominaram em looks futuristas com foco nos anos noventa e inspiração na luz sobre texturas. Dessa vez, ela optou por poucas estampas, mas, em compensação, manteve o habitual rigor na pesquisa de formas, com volumes nas mangas e destaque ainda para as assimetrias e recortes. E, para quem conseguiu sacar, as formas secas se desdobravam e maxi decotes V nas costas, acentuando a percepção de que o futuro pode ser muito sexy. Um primor, assim como a impactante trilha de Dudu Garcia!

Em outra direção, a Salinas trouxe seu humor carioca para a passarela, com direito aos poás que tanto são caros a Jaqueline de Biasi, a diretora criativa da marca. Como sempre, não houve espaço para minimalismo – coisa que não combina com o DNA da grife, que sempre flerta com influências étnicas, vintage ou retrô. Sim, a marca curte homenagear pin ups ou evocar estrelas do passado como Carmen Miranda e Brigitte Bardot. Nesta temporada, Jaqueline escolheu dar um rolé pelo cinema italiano dos anos sessenta. Mas, no caso, é bom esquecer candelabros italianos ou rostinhos estampados por medalhões da sétima arte européia como Rossano Brazzi ou Monica Vitti. Os ventos sopraram em direção às praias de Rimini ou da Costa Amalfitana, na mesma época em que Cely Campello fazia sucesso por aqui.Os biquínis de bolinha (ou melhor, bolões!) do hit de Cely predominaram no desfile, no cenário e nas peças, junto com listras e estampas florais. E, em uma temporada em que tudo parece difícil, o esforço para fazer um show com cenário bacana só comprova o desejo de superar a crise econômica. Palmas!

 Ainda no quesito moda-praia, o Fashion Rio apresentou ainda a nova coleção da Tryia, que cresceu em relação ao desfile anterior. Com silhueta seca, assimetrias e recortes, a grife de Isabela B. Frugiuele quis trazer a feminilidade para a passarela, com bocas vermelhas de Helmut Newton e rosas para estampas, maxi brincos e anéis. As padronagens e cartela de cores – em vermelho, pink, púrpura, turquesa e preto –  foram ponto forte, mas os detalhes em metal sobraram. E a Aüslander, surpresa! A grife transitou pelo esportivo, com menos alfaiataria que não duas últimas edições, mas continua mostrando amadurecimento e exibindo coleções de verdade. E, entre as influências streetwear, em um desfile todo em preto e branco com boas estampas gráficas, Ricardo Brautigam e equipe apresentaram uma boa dose de (bons) looks de moda-praia, com tops, biquínis, hot pants e sungas. Valeu!


colunaheloisatolipan@gmail.com