Vila Isabel faz desfile 'pra lá de bom' e é a grande favorita ao título!

Mangueira arrepia, mas atrasa; Beija-Flor pisa forte, mas peca em evolução e Imperatriz surpreende

Por Por Pedro Willmersdorf

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Enquanto, pelo interior do país, muitos homens de vida simples já se preparavam para levantar cedo, em mais um dia de trabalho, suor e enxada, na Sapucaí uma escola de samba prestou sua homenagem a estas pessoas que da terra tiram seu sustento e alimentam todo um país. E, assim, com um tributo ao nosso agricultor, a Vila Isabel emocionou a Sapucaí.

Mas, antes da escola do bairro de Noel, outras cinco agremiações passarem pela pista, também enchendo os olhos do público, com destaque para a bateria em dose dupla da Mangueira, as lágrimas de Fafá de Belém na Imperatriz e a cavalaria pesada da Beija-Flor. Confira.

São Clemente - A escola de Botafogo, assim como em 2012, apostou em um enredo de fácil leitura como arma para esquentar a plateia na abertura da noite de desfiles. Mas, apesar da proposta cativante do carnavalesco Fábio Ricardo ao relembrar as novelas que marcaram época na nossa TV, a apresentação da agremiação não rendeu o esperado. Em contraste com uma comissão de frente criativa e bem comandada pelo veterano Renato Vieira, a São Clemente levou à Avenida alegorias de padrão inferior ao do Carnaval passado, além de um conjunto de fantasias que não transmitiu de forma tão clara a história ser contada. O samba, mais fraco dentre todos da elite em 2013, foi abraçado pela comunidade, que, na medida do possível, cantou forte, embalada pela bateria competente do mestres Gil e Caliquinho. Justamente o que pode fazer a diferença a favor da escola na disputa para se manter no Grupo Especial.

Mangueira - Foi (quase) histórico: o desfile da Estação Primeira, cujos problemas no período pré-folia eram muito comentados, apostou na emoção em sua apresentação sobre Cuiabá para recuperar o viço da escola. Cid Carvalho foi muito feliz em seu conjunto de fantasias e, principalmente, em suas alegorias, luxuosas como há alguns anos não víamos na Mangueira. Mas os olhos, sem dúvida, estavam voltados para a bateria em dose dupla criada pelo presidente Ivo Meirelles. Uma proposta inovadora e ousada que, pela TV, rendeu mais do que ao vivo, pois a entrada do segundo grupo de ritmistas necessitava de uma harmonia perfeita da escola. No entanto, o canto dos componentes (apesar de forte durante grande parte do desfile) não segurou a participação acústica da segunda bateria, o que foi compensado com o retorno da bateria 'principal', acarretando um verdadeiro estouro das arquibancadas. No fim, o atraso de seis minutos que, apesar de comprometer a escola na briga pelo título, não apaga a apresentação surpreendente da Mangueira, após meses conturbados de crise financeira e política.

Beija-Flor - Após um ensaio técnico avassalador, a expectativa de um desfile de mesmo nível foi criada. E quase cumprida. Com o luxo típico de seu conjunto de alegorias e fantasias, a Beija-Flor retratou de forma competente seu enredo sobre a presença do cavalo na vida do homem, com uma harmonia coesa, mas uma evolução que deixou a desejar. À frente do sexto carro da escola, que teve dificuldades para entrar na Avenida, se formou um buraco que se prolongou por quase dois setores de arquibancadas. Um pecado grave para uma escola conhecida pelo esmero técnico. Nada, porém, que comprometa o desempenho da Beija-Flor em outros quesitos, como fantasia, samba-enredo e bateria, setores em que a azul-e-branca, mais uma vez, mostrou segurança e eficiência. 

Grande Rio - Na Sapucaí, a surpresa de uma combinação que parecia improvável: petróleo dá samba, sim. Com fantasias de fácil leitura, o carnavalesco Roberto Szaniecki conseguiu transformar em festa um discurso que poderia ser (apenas) político. No entanto, a execução irregular no acabamento das alegorias pode prejudicar a escola, pois, em contraste com um abre-alas modesto a tricolor apresentou uma última alegoria gigantesca e de alto padrão de confecção. E este teor, de altos e baixos, se estendeu da sequência de carros às fantasias, também incongruentes em seu acabamento por diversos setores. Destaque negativo também para a evolução da escola, compacta, porém arrastada em grande parte do tempo, apesar do canto forte da comunidade de Caxias. Na bateria, o pulso firme de mestre Ciça e suas paradinhas/bossas ousadas que levantaram o criticado samba-enredo da escola.

Imperatriz - Cahê Rodrigues chegou impondo respeito à frente do Carnaval da escola, levando a Ramos uma proposta luxuosa e detalhista sobre o estado do Pará, lembrando os áureos tempos da soberana dos anos 90. Com alegorias belíssimas e fantasias de acabamento primoroso, a Imperatriz entra forte na briga por uma vaga no sábado das Campeãs e, quem sabe, na luta pelo título. Destaque para o samba belíssimo, entoado pela dupla Dominguinhos do Estácio e Wander Pires. Mas, se formos pensar em uma estrela para representar o brilho do desfile da escola, impossível não citar Fafá de Belém, presente na impactante comissão de frente e também ao final, quando retornou à Sapucaí às lágrimas, encerrando o desfile diante da última alegoria. Uma emoção única para a cantora e também para o público, deslumbrado ao presenciar o renascimento da Imperatriz Leopoldinense.

Vila Isabel - O grande desfile de 2013: assim pode ser encarada a apresentação da escola do bairro de Noel Rosa, principalmente diante de tantos erros das principais rivais na luta pelo título. Com o melhor samba do ano ecoando na voz de toda a Avenida, a agremiação contou com um trabalho inspirado de Rosa Magalhães, impecável no jogo de cores, na concepção de suas fantasias e na delicadeza de sua proposta, principalmente nas alegorias. Com evolução compacta e harmonia irretocável, a Vila brincou na pista, se divertiu e empolgou até camarotes e arquibancadas especiais, repletas de turistas. Um espelho do que se desenrolava a olhos nus: componentes entregues a um enredo simples fizeram de uma apresentação carnavalesca uma festa no interior, com todos os elementos típicos de um arraiá. Mais do que carros grandiosos ou truques de ilusionismo, a Vila apostou em uma performance clássica, colorida e carnavalesca, mostrando que a maior mágica que pode existir em um desfile é a alegria do sambista, realizado com um belo samba, empolgado por sua bateria e orgulhoso da fantasia que veste. Uma festa.

Por Pedro Willmersdorf

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