A pausa de Ronaldo Fraga faz pensar: qual é o futuro do processo criativo?

Estilistas da SPFW contam suas táticas para não caírem nas armadilhas do novo mercado 

Por Com Pedro Willmersdorf e Beatriz Medeiros

Confira também o nosso blog.

Dezembro de 2011 estava quase na metade quando recebemos em nosso email a carta escrita por Ronaldo Fraga anunciando a sua saidinha para respirar, por uma temporada, do line-up da SPFW. O estilista-artista pediu um tempo para se concentrar em "palavras, riscos, rabiscos e desenhos" e buscar novas maneiras de pensar, produzir e consumir moda. 

A agilidade da troca de informações nesse tempo de Twitter também acelerou a nossa ansiedade por novidade e, consequentemente, o ritmo de lançamento de coleções e semanas de moda. Quem nunca se pegou dando uma olhada nos looks lindos que as celebridades estão vestindo no Inverno do Hemisfério Norte e desejando trocar o calor do nosso verão por temperaturas abaixo de zero, enrolado por várias pashminas e jaquetas de couro? Culpa da síndrome da eterna insatisfação, velha conhecida de todos nós. 

A pressão que os criativos sofrem já foi até justificativa para a vergonha fashion do ano que passou, os xingamentos a judeus proferidos por John Galliano, então é melhor dar um tempo do que sair por aí machucando quem vê pela frente. "O consumidor sofreu uma mudança considerável e está ávido por velocidade e quantidade. As marcas estão precisando se encaixar em uma estrutura frenética e até substituindo a identidade criativa do estilista por grandes grupos, que não se importam muito com as particularidades de cada grife. Todo mundo só quer saber das fast fashion, que espalham as tendências pelo mundo em escala assustadora, mas, se o mercado - e esses grupos - padronizarem as coleções, de quem as fast fashion vão copiar?", refletiu o estilista querido Fause Haten. "O Ronaldo optou por uma pausa para descobrir novas expressões criativas e se reencontrar. Ele é um artista. E não dá para buscar 'tendências' nas passarelas de artistas como o Lino Villaventura, Reinaldo Lourenço e o próprio Ronaldo", concluiu Fause, que, além de encantar com moda, também é cantor, músico, faz poesias e canções. 

Para Raquel Davidowicz, que comanda a marca UMA, o segredo para não cair nas armadilhas do mercado e perder a identidade é jamais esquecer o seu público. "Não dá para criar uma coleção colocando quais são as tendências como regente do seu processo criativo. É preciso seguir a identidade do seu cliente e pensar o que ele vai querer usar no Inverno, por exemplo. Assim, é possível agradar o lado comercial e o criativo", disse. 

André Lima, que fechou essa edição de Inverno 2012 da SPFW com um desfile aplaudido de pé e fervorosamente, tem um processo criativo quase masoquista. "Eu repenso o tempo todo. Repenso a o tamanho dos vestidos, as modelos, os acessórios, os tecidos, tudo e em qualquer lugar - da esteira da academia ao banho. Quando estou criando a coleção, passo uma semana com os croquis em preto e branco colados em uma parede, repensando-os. Só depois de ter certeza sobre a forma de cada peça, começo a pensar nas cores e tecidos", contou. "O Brasil está atraindo muitas marcas internacionais, que chegam aqui com uma equipe de marketing muito forte e bastante dinheiro. Precisamos aliar a criatividade à cadeia produtiva para acompanhar a guerra. Porque isso tudo é realmente uma guerra", finalizou. 

Guerra criativa que, esperamos nós, o nosso lado artístico saia ganhando e sem nenhuma baixa. 

colunaheloisatolipan@gmail.com