Qual é a cara da nova MPB?
Aproveitamos mais uma apresentação do projeto Oi Novo Som para tentarmos decifrar os códigos da nova música brasileira. Confira nossa conversa com Mariano Marovatto, que em seu disco conta com a participação de nomes como Kassin e Davi Moraes
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'À procura da batida perfeita'. Sentença marcada em música de Marcelo D2, esta mais parece ser a máxima da nova música popular brasileira. Mistura de ritmos, colaborações entre artistas que, acima de tudo, são amigos, e quebra de preconceitos quanto a gêneros. Uma trinca elementar que parece vir dando forma à nova MPB.
Mas qual é a cara desta fase frutífera da nossa música?
Para tentarmos elucidar mais os fatos, aproveitamos um delicioso ensejo, no show de Mariano Marovatto dentro do projeto 'Oi Novo Som', capitaneado pelo queridíssimo Bruno Vieira.
No espetáculo, Mariano apresentou músicas de 'Aquele amor nem me fale', seu álbum que contou com a participação de nada menos que 32 nomes, da namorada, a poetisa Alice Sant'Anna, até a guitarra furiosa de Davi Moraes. É o tal espírito de colaboração de que falamos. Vamos, então, aos dedos de prosa bacana que trocamos com o moço?
HT: A nova MPB, pelo que a gente percebe, se mostra cada vez mais colaborativa, com participações especiais de amigos que compartilham talento juntos em shows e gravações, como no seu CD, por exemplo. Qual seria a importância desse espírito na música, na sua opinião?
Mariano: Pois é, acho que a minha maior sorte é ter grandes amigos muito talentosos. Não digo apenas em relação aos músicos: poetas, artistas plásticos, cineastas, até advogados! (risos) Como disse o Kassin, mesmo fazendo um disco solo gravado na sua casa com as suas próprias músicas, você nunca vai fazer nada sozinho. Eu sempre tive uma vontade de agregar todo mundo nos meus projetos "solos". O fato da colaboração mútua de pessoas que se repetem nos encartes de vários discos da dita nova MPB, se pararmos para pensar, não é uma coisa recente. As 'tchurmas' sempre foram autocolaborativas. Veja o rock nacional dos anos 80, toda a galera da bossa nova, todo o pessoal do samba. Eu acho que quando estamos no mesmo barco a tendência é remarmos juntos e conhecermos todos os remadores. O que diferencia é o fato de não haver mais disputas, bipolaridades ideológicas, tipo Emilinha ou Marlene, ou Caetano e Chico (que, na verdade, sempre foram muito amigos). Essas disputas sempre foram meio bobas. Mas será que este momento sem disputas é saudável? A coisa fica meio solta? O tempo dirá. Dirá? (risos)
HT: No seu álbum, há uma música do Asa de Águia. Já teve algum preconceito em relação a algum gênero musical?
Mariano: A versão do Asa de Águia é justamente uma sublimação do meu preconceito musical. Quando escutava Asa, Banda Beijo ou Daniela Mercury incessantemente, quando morei em Maceió, no auge da Axé Music (1991-1994), achava que era a coisa mais insuportável que poderiam ter inventado. Somando isso à grande saudade que eu sentia do Rio de Janeiro, onde estavam meus familiares e amigos, a raiva era verdadeira. Mas depois, já adulto, reescutando esses discos, descobri que sabia todas as músicas de cor e acabei nutrindo uma grande simpatia por esse axé de 20 anos atrás. A versão do Asa é uma homenagem a esse período de vida em Maceió. Meu preconceito musical hoje se estende só à jabá music.
HT: Quem é a maior referência para você quando o assunto é 'intérprete'?
Mariano: Caetano Veloso é o maior intérprete de qualquer canção que não seja dele. E também maior intérprete de suas próprias canções.
