Cristiana Arcangeli: dos backstages ao canteiro de obras

Um papo com a empresária de moda e beleza que comanda o 'Extreme makeover social'

Por Com Pedro Willmersdorf e Beatriz Medeiros

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Sábado à noite, início da madrugada de domingo e você está se arrumando para ouvir batidas e batucadas. O som não sai do comando de um DJ badalado em uma boate, mas das marretas do time que faz as reformas do Extreme Makeover Social. O programa comandado por Cristiana Arcangeli está chegando na sua segunda temporada com uma obra especialíssima para a nossa cidade: a reforma de uma creche no Complexo do Alemão. Quem conhece Cris desde os tempos em que trabalhava por detrás da organização do Phytoervas Fashion, primeira semana de moda brasileira que divulgou o trabalho de estilistas iniciantes (à época) como Alexandre Herchcovitch, Fause Haten e Marcelo Sommer, e como uma grande empresária da área de cosméticos e beleza pode achar um tanto incomum imaginá-la em meio a andaimes e latas de tinta. Para os desavisados, é melhor assistir ao programa de audiência crescente e dar uma lida no papo que tivemos com ela, no intervalo das gravações.

O modelo do Extreme makeover é importado. Por que decidiram adaptá-lo e, ao invés de casas, reformar obras sociais?

 - Quem pensou na reforma do formato foi a Daniela Bussoli, presidente da Endemol no Brasil, que me convidou depois do meu trabalho n'O aprendiz, e o trunfo é justamente a pegada social que o Brasil precisa. Lá fora, o programa beneficia uma família com uma nova casa, aqui, nós atendemos não só um núcleo familiar, mas toda a comunidade: a escola, as crianças, as famílias das crianças. Esse novo modelo foi tão bem sucedido que está sendo exportado para outros países e, aqui, o programa vai ao ar às 0h30 e estamos marcando entre 6 e 7 pontos na audiência.

Como está sendo a experiência de migrar do universo da moda para os canteiros de obra?

 - É muito interessante porque são coisas completamente diferentes. Mas recebi muito bem a proposta porque gosto de me renovar e me adapto com grande facilidade. Para mim, mais importante do que a obra em si são as histórias, as famílias, as crianças. É mais sobre o que conseguimos fazer do que a obra em si. A dinâmica de trabalho também é diferente. No programa, a gente está sempre com pressa porque fazemos cinco creches em três meses enquanto o governo faz uma em três anos. Nos desfiles era um clima mais glamouroso e eu precisava cuidar de outros detalhes, como cenário, luz e trilha sonora.

Mas a correria é comum aos dois ambientes, não?

 - Claro. Isso faz parte da minha vida há 20 anos. Nunca fugi de trabalho, a correria faz parte da minha rotina.

Como é trabalhar com e para a classe C?

 - Já trabalho com esse público há muito tempo com as minhas linhas de cosméticos (Cristiana criou a Phytoervas), mas, no programa, atingimos todos os tipos de classe. Temos diversas marcas fazendo merchandising e lidamos com os professores, os diretores, os operários das obras, as mães dos alunos...

Como está sendo trabalhar no complexo do Alemão depois da pacificação?

 - Quando eu perguntei a um líder da comunidade se o Alemão estava pacificado de corpo e alma, ele me disse ‘de corpo sim, de alma não’. O maior benefício foi a integração das pessoas do morro com o resto da cidade e isso aconteceu, principalmente, por conta do teleférico. É o começo de um trabalho que ainda tem muito a ser feito, como os beneficiamentos de rede de esgoto e instalações elétricas. Estamos construindo essa creche em uma antiga escola, que, há cinco anos, ficou sob fogo cruzado em uma troca de tiros entre policiais e traficantes. Na época, 17 alunos foram atingidos por balas e estilhaços e queriam fechar o colégio, mas os professores não deixaram. A escola mudou de lugar, o prédio ia ser demolido, mas vamos fazer uma creche lá. É desse tipo de estrutura que o Complexo precisa.

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