Acadêmicos na Casa Brasil na Fliporto

Arnaldo Niskier e Nelson Pereira dos Santos reverenciam Gilberto Feyre

Por

O autor de Casa Grande e Senzala foi lembrado em diversos momentos durante a programação da Casa Brasil na Fliporto, neste fim de semana. Após a concorrida vernissage de Christina Oiticica, com presença de diversas personalidades de Pernambuco, como o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o curador da Fliporto, Antônio Campos,  o prefeito de Olinda, Renildo Calheiros, a deputada federal Ana Arraes, o fim de semana teve como tônica a obra de Gilberto Freyre. 

O primeiro a falar foi o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier. Em sua palestra “Gilberto Freyre e a Pedagogia os Trópicos”, o imortal ressaltou sua convivência com Gilberto Freyre e explicou por que o escritor que definiu as raízes do povo brasileiro não se tornou acadêmico - apenas porque não quis. Niskier, desde sua eleição um líder da ABL, convidou Freyre a se canditar a um assento, mas este não se interessou.

Durante a sua apresentação, Arnaldo Niskier, um notável na área de educação, buscou em Freyre as explicações para o ainda baixo padrão da educação brasileira. Explicou que o país é, de fato, uno em função da língua portuguesa, ensinada pelos jesuítas durante o período colonial.  Esta unidade, contudo, não foi suficiente para que grupos étnicos, como índios e negros, fossem respeitados. 

O analfabetismo ainda é gigantesco, sendo o perfil do pais formado por 14 milhões de analfabetos e 50 milhões de semianalfabetos.

No mesmo dia, Christina Oiticica conversou com o público sobre seu processo artístico, sobre como foi o insigth que a levou, no início da década passada, a enterrar suas obras em locais simbólicos. Ao seu lado estava Patrícia De Luna, autora do livro Contando a história de Chrstina Oiticica

O domingo foi integralmente “Gilbertiano”. Primeiro com a participação de D. Sonia Freyre (filha de Gilberto Freyre) e do cineasta e membro da Academia Brasileira de Letras, Nelson Pereira dos Santos. Falaram sobre a série de documentários Casa Grande Senzala, que está sendo lançada em DVD. Uma das curiosidades abordadas foi como Nelson chegou à conclusão  de ter o escritor Edson Neri representando o próprio Gilberto Freyre. Neri havia sido uma importante fonte de pesquisa para Nelson Pereira dos Santos, que percebeu que o escritor dominava o livro Casa Grande e Senzala a ponto de recitá-lo inteiro. 

A programação seguiu com a palestra/degustação Entre Águas: Um apanhado sobre os hábitos gastronômicos dos países Asiáticos e Africanos banhados pelo Mar Mediterrâneo e a influência na cultura do ocidente e na culiária do Nordeste, da chef e consultora de gastronomia Fernanda Cademartori, que falou de como a civilização islâmica, tolerante e aberta dos trechos africano e asiático do Mediterrâneo, influenciou a gastronomia dos países europeus. A expressão máxima desta interação ocorreu na região conhecida como Al-Andaluz, dentro do que hoje está a penisula ibérica, os Estados de Portugal e Espanha.  Em relação aos alimentos e pratos consumidos  no Al-Andaluz, hoje são encontrados vestígios de alguns deles em Portugal, Espanha e no Brasil. O tema foi foco importante na obras de Gilberto, em especial em Sobrados e Mocambos, continuação de Casa Grande e Senzala

Após sua fala foram servidos, na forma de finger foods, diversos pratos de origem Al-Andaluz, como cuscuz de milho, mousaka e purê de gerimum. O público também se entreteve com drinques feitos à base de saquê, preparados pelo bartender Getúlio Marcolino. 

O segundo dia de palestras terminou com a participação de Gilberto Freyre Neto e do arquiteto e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tomaz Lapa. O foco foi a influência efetiva da cultura e de hábitos orientais e islâmicos  na cultura brasilieira. Freyre Neto explicou que hábitos do brasileiro têm origem em povos orientais. Por exemplo, andar com a camisa para fora da calça é um hábito eminentemente indiano; ir à missa com a cabeça coberta, um costume islâmico trazido pelos portugueses para o Brasil. 

Tomaz Lapa explorou a influência islâmica pelo viés arquitetônico. Mostrou diversos exemplos de traços orientais nas construções brasileiras do período colonial, incluindo estética, azulejaria e forma de construir. Lapa ressatou que, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil foi colonizado antes do século XX mormente por portugueses, espanhóis  e italianos, além dos negros africanos, trazidos à força. No século passado, contudo, a realidade mudou, com a vinda de árabes e asiáticos. Hoje vivem no Brasil mais de 10 milhões de pessoas de ascendência libanesa ou síria e 1 milhão que tem origem japonesa.