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Brasil Sub-15 abre Sul-Americano em meio a recusa de clubes à CBF

Por Dassler Marques

Ter seus jogadores na Seleção Brasileira é um desejo de todo clube, certo? Mas não é assim que funciona quando o assunto é a equipe Sub-15, estreante desta sexta-feira no Sul-Americano da categoria, contra a Colômbia. Para a competição, que é realizada no Uruguai, o treinador Marquinhos Santos precisou enfrentar o não de pelo menos duas equipes, o que tem relação direta com a Lei Pelé.

Cruzeiro e Vitória confirmam abertamente que fazem restrições às convocações da Seleção Brasileira Sub-15. As recusas são amparadas em perdas de jogadores importantes no passado: o clube rubro-negro, por exemplo, ficou desfalcado do goleiro Guido, hoje no time Sub-17 do Santos, por conta de seu sucesso na Seleção em 2009. A lógica se repetiu recentemente, e o meia Danilo, um dos destaques da equipe atual, foi embora para o Vasco.

"O Danilo tinha três anos de Vitória. No dia de assinar o contrato, em julho, ele chegou da Seleção, para a qual era convocado havia dois anos, e foi embora chorando dentro de um carro porque não queria ir. Foi arrancado daqui pela mãe. Tínhamos acabado de dar tudo que ela pediu, inclusive fogão e geladeira novos. Não há um código de ética e a Seleção não fez nada também", reclama João Paulo Sampaio, coordenador das divisões de base do Vitória.

Segundo a Lei Pelé, jogadores de futebol só podem assinar contratos profissionais a partir dos 16 anos. Assim sendo, qualquer atleta com idade inferior, inclusive da Seleção Sub-15, pode se transferir sem ter de compensar seu antigo clube financeiramente. A situação provoca verdadeiras guerras em bastidores.

Um caso marcante ocorreu entre Cruzeiro e Traffic, que quebraram relações no último ano. O atacante Aguilar, destaque da equipe infantil cruzeirense, se transferiu da noite para o dia ao Desportivo Brasil, clube de propriedade da empresa de marketing esportivo. Zezé Perrella, então presidente do clube mineiro, chegou a ameaçar a extinção das categorias de base Sub-15, Sub-13 e Sub-11. Desde então, o Cruzeiro não cede jogadores sem contrato profissional assinado para a Seleção.

"É uma decisão coerente, porque o clube perdeu jogadores e foi prejudicado" lembra Marcelo Vilhena, treinador da equipe Sub-15. "Há um lado positivo com a ida do jogador para a Seleção, que é seu crescimento e mais maturidade. Mas muitos também voltam com o foco diferente e sei que gostariam de poder servir o Brasil", observa Marcelo.

"A CBF abre a Granja Comary para todo mundo", diz são-paulino

Muitos clubes não admitem abertamente, mas evitam a Seleção Brasileira em casos específicos com o temor de perder os jogadores sobre os quais não têm controle total. Segundo o Terra apurou, no início do ano, um clube grande paulista acusou lesão inexistente de um jogador para que ele não servisse o Brasil. Após convocação em janeiro, o Internacional perdeu um dos destaques de sua equipe Sub-15, o meia Fernando Amorim, para o Lyon. Na avaliação dos clubes, o ambiente de Seleção favorece a investida de empresários e outros intermediários.

"Existe um assédio. A CBF abre os portões da Granja Comary para todo mundo, mas o São Paulo não se opõe às convocações", afirma José Geraldo de Oliveira, gerente do departamento de base são-paulino. "Antes do Ney Franco, as convocações eram políticas, sem critérios técnicos. Hoje, algumas convocações saem em períodos complicados e prejudicam a vida escolar. O Denílson (hoje nos profissionais), antes dos 18 anos, tinha quase 30 convocações e perdeu dois anos escolares por isso".

O Terra entrou em contato com Ney Franco, coordenador das divisões de base da CBF, que confirma a situação. "Respeitamos essa decisão porque não temos como evitar. A legislação protege isso, dá liberdade de ir e vir. Isso sai da esfera do futebol, tem a ver com a vida profissional", argumentou.

O Brasil tem dois títulos em três edições do Campeonato Sul-Americano Sub-15, em 2005 e 2007. Phillipe Coutinho comandou a Seleção na última conquista, que ocorreu no Rio Grande do Sul.