Síntese da Conjuntura: um voto de confiança no governo
A Confederação Nacional do Comércio (CNC), em seu boletim “Síntese da Conjuntura”, elaborado pelo economista e ex-ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, faz as análises do atual cenário econômico. Veja abaixo o boletim quinzenal, publicado no dia 15 de março:
Ninguém tem dúvidas de que a Presidente Dilma cometeu muitos erros, em seu primeiro mandato, erros fundados em uma política econômica equivocada e numa política social acima da capacidade financeira do Governo.
Agora, o que parece evidente após a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda é que a orientação da política econômica mudou. E mais, foram nomeados outros QUATRO Ministros, igualmente competentes em suas áreas de atividades, que pretendem “mudar o jogo”: Armando Monteiro, Ministro do Desenvolvimento, Nelson Barbosa, no Planejamento, Kátia Abreu, na Agricultura e Carlos Eduardo Gabas, na Previdência Social.
Seria da maior importância que o empresariado nacional, os trabalhadores e os membros do Congresso Nacional conferissem um voto de confiança e emprestassem todo apoio a essa equipe econômica, dispensando o necessário apoio em favor do possível sucesso da nova política.
Assim como o Ministro da Fazenda, a Presidente Dilma considera que está esgotado o modelo econômico adotado em seu primeiro mandato, com política de desoneração fiscal e crédito subsidiado.
NOVO CÁLCULO DO PIB
Seguindo metodologia internacional, o IBGE procedeu reavaliação da economia nacional nos anos 2001 a 2011. A revisão elevou o PIB brasileiro em 2011 de R$ 4.143 bilhões para R$ 4.375 bilhões, registrando naquele ano uma expansão de 3,9% ante 2,7% anterior. Também mudaram os dados sobre investimentos, que de 19,3% do PIB em 2011 passaram a 20,6%. A taxa de poupança subiu de 17,2% para 19,4%. O índice da indústria deu um salto de 1,6% para 4,1%.
Outros países também adotaram a nova metodologia. Entre os 31 países da OCDE os investimentos registraram alta média de 2,2 pontos percentuais e o PIB de 3,8 pontos.
A previsão de expansão do PIB do Brasil em 2014, segundo a Tendências Consultoria continua negativa em 1,2%. O Departamento Econômico do Bradesco estima a queda em 1,5%. Para 2015, os analistas do mercado financeiro preveem retração de 0,58%. O Credit Suisse e o Paribas consideram que a recessão pode chegar a 2%.
ATIVIDADES ECONÔMICAS
Com aumento da taxa de desemprego, menor disponibilidade de renda, alta de juros e confiança do consumidor nas mínimas históricas, o consumo das famílias deve interromper um ciclo de expansão que durou 11 anos e registrar a primeira queda desde 2003.
Nos primeiros dois meses, o volume de títulos protestados cresceu 14,9%, sendo 9,5% para pessoas físicas e 24,5% para pessoas jurídicas. O consumo de energia caiu 2,5% em fevereiro ante janeiro e -2,8% ante fevereiro/14.
Indústria
Segundo o IBGE, a produção industrial aumentou 2,0% no primeiro mês do ano, após uma queda de 3,2% em dezembro e recuo de 1,1% em novembro. Ao longo de 2014, foram sete meses com taxas abaixo de zero. A indústria extrativa cresceu 2,1% depois de também ter resultado negativo em dezembro (-0,5%), enquanto a de transformação avançou 1,8%, com retração de 3,6% em dezembro. O setor de bens de consumo teve redução de 1,1%. O maior destaque foi a categoria de bens de capital, com crescimento de 9,1%. Na comparação com janeiro de 2014, houve uma queda de 5,2%.
Em São Paulo, a produção industrial subiu 7,1%, em Pernambuco 13,5%, Minas Gerais 6,5%, Goiás 4,4%, Espírito Santo 4,3%, Santa Catarina 2,4% e Rio de Janeiro 0,2%. Houve recuo na Bahia (-10,1%), Paraná (-5,6%), Rio Grande do Sul (-2,9%), Amazonas (-2,3%), Ceará (-2,0%), Região Nordeste (-1,9%) e Pará (-0,9%).
A produtividade na indústria de máquinas teve queda real de 2,9% entre 2007 e 2014. O consumo de energia no setor industrial caiu 1,7%.
A queda mais acentuada se deu na indústria automobilística, com queda de 28,9% na produção e de 26,7% nas vendas de automóveis em fevereiro, ante janeiro e -28,3% ante fevereiro/14 (Fenabrave). Também caiu a venda de carros usados.
Os sinais de demanda enfraquecida e o nível ainda expressivo de capacidade ociosa estimularam uma parcela maior da indústria brasileira a considerar a redução de investimentos em capital fixo nos próximos 12 meses. O Grupo Gerdau vai investir 17,4% menos em 2015, pelo terceiro ano consecutivo. A CNS vai reduzir seus investimentos neste ano, um corte de 41% sobre o ano passado. A Petrobras está vendendo quase metade de sua frota de 53 embarcações.
A crise de água, ao que tudo indica, está superada, sem necessidade de racionamentos. As fortes chuvas estão reabastecendo as principais represas, principalmente na região de ão Paulo.
Comércio
Segundo a pesquisa PMC/IBGE, o comércio varejista avançou 0,6% em janeiro sobre janeiro/14 e 0,8% ante dezembro/14. Dos oito ramos pesquisados, cinco registraram expansão, com destaque para materiais de escritório, informática e comunicação (+19,0%) e artigos médicos e farmacêuticos (+5,0%). O ramo livros, jornais, etc. caiu 10,4%.
Em termos regionais, sobressaem a Região Norte (+2,4%) e os Estados de Roraima (+26,0%), Amapá (+18,4%) e Rondônia (+8,9%). Entre janeiro 2014 e janeiro 2015, o movimento do comércio caiu 1,2% (SCPC). A CNC revisou para +1,3% a expansão do comércio em 2015.
As compras a prazo registraram queda de 4,8% em fevereiro ante janeiro. No acumulado do bimestre, a queda foi de 0,51% (CNDL). O número de famílias com dívidas caiu de 62,7% em janeiro/14 para 57,8% em janeiro último.
O índice de confiança dos empresários do comércio vem caindo e, em janeiro, 76,3% consideraram que a situação econômica está pior do que há um ano (Icec/CNC).
Agricultura
A segunda estimativa do IBGE prevê um recorde de 199,6 milhões de toneladas de grãos para a safra 2015, 3,5% acima da safra 2014. O Estado de Mato Grosso representa 23,3% da produção nacional, seguido de Paraná (18,4%) e Rio Grande do Sul (18,2%).
O maior crescimento da safra vai se dar na produção de soja. A seca vai reduzir a produção de cana de açúcar. As vendas acumuladas de tratores, de janeiro a fevereiro, tiveram redução de 26%, o maior patamar desde 2009.
Na Bolsa de New York a cotação do café teve queda de 6,5% em março, acumulando queda de 21,5% em um mês.
Mercado de Trabalho
A crise econômica eliminou 81.774 postos de trabalho em janeiro, deixando um saldo líquido positivo de 29,5 mil, o pior resultado desde 2009. O comércio foi o setor que mais demitiu (-97,9 mil). A indústria contratou mais 27,4 mil e a agricultura +9,4 mil. A taxa de desemprego subiu de 6,4% em janeiro/14 para 6,8% em janeiro último (PNAD/IBGE). A renda dos trabalhadores que vinha caindo desde o início de 2014 registrou ligeira alta desde agosto/14, com acréscimo de 2,13% em janeiro último.
O total de trabalhadores ocupados chegou a 92,7 milhões em janeiro/15, com mais 505 mil pessoas desempregadas, elevando o total do desemprego a 6,763 milhões. Em São Paulo, em fevereiro, o emprego na indústria caiu 0,74% – 9,5 mil postos – queda de 5,7% em relação a fevereiro/14 (CIESP/FIESP). A montadora Volks vai colocar 4.200 trabalhadores em férias coletivas. O setor de veículos já cortou 2.200 empregos. O número de empregados na construção civil caiu 0,34% em janeiro sobre dezembro/14 e 6,14% em relação a janeiro/14. Em 2014, 51,7 mil trabalhadores estrangeiros foram autorizados a trabalhar no País.
Setor Financeiro
A caderneta de poupança, que vem rendendo menos que a inflação, está sofrendo fuga de depositantes e registrou perda de R$ 6,2 bilhões em fevereiro, acumulando menos R$ 11,8 bilhões no 1º bimestre.
O Tesouro Nacional suspendeu os repasses ao BNDES, mas o banco ainda examina um repasse de R$ 3 bilhões para a Siderúrgica do Pecém/CE, da Vale.
Inflação
A inflação do 1º bimestre registrou a maior alta sobre 2014. O IPCA subiu 1,24% em janeiro e 1,22% em fevereiro. O IPC/FIPE e o ICV/DIEESE registraram níveis ainda mais altos. As menores altas foram registradas no setor atacadista, em fevereiro, com aumento de 0,53% no IGP-DI/FGV, de 0,27% no IGP-M/FGV e 0,41% no IPA-DI/FGV. A 1ª prévia do IGP-M/FGV chegou a 0,74%, em março.
A maior pressão inflacionária, no momento, vem dos reajustes dos preços administrativos, que sobem 9,6%. Nas expectativas do Banco Central, a inflação só vai ceder em 2016. Segundo a CEAGESP, o preço dos alimentos teve alta de 2,8% em janeiro e 4,27% em fevereiro.
Após a energia elétrica (8,27%) ter sido o destaque da inflação em janeiro, ao lado dos ônibus urbanos (8,02%), em fevereiro foi a vez da gasolina, que aumentou 8,42%.
Setor Público
“O superávit primário de 3,11% do PIB em 2011 transformou-se em um déficit primário de 0,64% do PIB em 2014; o déficit nominal saiu de 2,61% do PIB para 6,71% do PIB no mesmo período; e a dívida bruta cresceu de 54,15% do PIB para 64,41% do PIB.
Para gerar um emprego de R$1.500 mensais, a União pagou R$ 5 mil (R$ 60 mil por ano). É mais do que hora de se ter mecanismos de avaliação das políticas públicas.” (Claudia Safatle – Valor 6/3/2015)
No primeiro quadrimestre deste ano, o PAC vai desembolsar R$ 4,8 bilhões a menos do que no mesmo período de 2014. A queda de cerca 23% em termos nominais vai afetar principalmente o Ministérios das Cidades, responsável pelo Minha Casa, Minha Vida, e o da Defesa, que usa mão de obra do Exército para tocar obras de infraestrutura.
A primeira rodada de cortes de gastos, redução de subsídios e elevação de receitas já configura um pacote de ajuste fiscal de R$ 111 bilhões. O Ministro da Fazenda acredita que as medidas anunciadas serão suficientes para garantir a meta de superávit primário de 1,2% do PIB neste ano.
O Ministro da Fazenda limitou em R$ 75 bilhões os gastos previstos até abril pelo Executivo, redução de 20% nas despesas listadas na proposta orçamentária para 2015.
É preocupante a expansão continuada e acelerada das operações compromissadas do Banco Central nos últimos meses, como reflexo das dificuldades que o Tesouro vem encontrando para rolar integralmente a dívida pública federal, em razão das incertezas políticas e macroeconômicas.
O programa Minha Casa, Minha Vida ficou praticamente sem contratar novas moradias destinadas à população de baixa renda, nos dois primeiros meses de 2015.
A linha de transmissão de energia entre Manaus e Boa Vista, com 721 quilômetros de extensão, foi leiloada em 2011 e, segundo o cronograma, deveria ter sido inaugurada há dois meses. Só que nem saiu do papel. Apesar de o concessionário já ter todos os cabos e 1.770 torres compradas, a obra não pode ser iniciada, por falta de parecer da Funai (!?).
Setor Externo
Sem dívida, os dois maiores problemas do Brasil, na conjuntura atual, são o déficit do setor público e o desequilíbrio do Balanço de Pagamentos. O primeiro está sendo tratado com o corte de despesas públicas e o segundo começa a ter uma solução clássica, através da desvalorização cambial, que a nosso ver, caminha para R$4,00/US$. Vai ser ruim para a inflação, mas vai ser bom para a indústria.
É importante reforçar a agenda do Ministro Joaquim Levy, para amenizar o déficit fiscal, como apoiar o programa do Ministro Armando Monteiro, para estimular o comércio com os Estados Unidos e priorizar o fomento às exportações.
A situação do comércio exterior está se agravando em 2015. No 1º bimestre, as exportações caíram 13,1% e as importações 10,2%, com déficit de US$ 6 bilhões na balança comercial.
No cenário externo, continua a queda das principais commodities, com destaque para o petróleo, o minério de ferro, metais e produtos siderúrgicos. A economia americana vai bem, com aumento de emprego e queda do desemprego. Estão crescendo os estoques de petróleo.
Na Europa, prevalece o programa do BCE, que se propõe a expandir a liquidez monetária através da compra mensal de €60 bilhões de títulos das carteiras dos bancos, com o objetivo de chegar a €1 trilhão.
Na Ásia, continuam fracas as expectativas econômicas. A produção industrial e o comércio da China estão crescendo abaixo das previsões. As vendas de moradias caíram 16,7% no 1º bimestre do ano. A produção de aço bruto caiu 1,5%. O Japão continua crescendo lentamente e em 2014 deve ter crescido 1,5%.
