Políticas econômicas latino-americanas não trarão desenvolvimento
Avaliação é do economista argentino Roberto Frenkel
Na entrevista feita pelo jornalista Alejandro Rebossio para o periódico espanhol El País, o economista argentino Roberto Frenkel, do Centro de Estudos de Estado e Sociedade (CEDES), argumenta: “Não tenho nada a ver com a esquerda argentina”. Aos 70 anos, Frenkel integra grupos de trabalho sobre a liberalização do mercado de capitais, política macroeconômica e dívida soberana, temas que deram o Nobel a Joseph Stiglitz e ao ex-ministro colombiano José Antonio Ocampo. “Desde antes da crise, somos keynesianos, diz, referindo-se à grande recessão mundial de 2008/2009.
“Usamos teorias distintas para entender cada um dos países em desenvolvimento. Temos de ver a macroeconomia e as finanças destes países em desenvolvimento com suas características próprias, diferentes das dos países desenvolvidos. Temos uma rede de economistas latino-americanos em Ocampo.
P: Este domingo haverá eleições na Venezuela. O modelo venezuelano tem a ver com o que ocorre na Bolívia, Equador e Nicarágua, com baixa inflação e acordos de livre comércio com os EUA?
Roberto Frenkel: Não tem nada a ver. Uma coisa é até onde o Estado deve se estender na economia e outra é a política econômica. Há países com políticas macroeconômicas consistentes, e outros que não. Nossa política macroenonômica na Argentina é inconsistente. O estímulo á demanda tende a gerar inflação, há falta de dólares , que são controlados, assim como os preços. Aparecem os mercados negros, com preços inviáveis. O governo diz que o mercado negro ainda é pequeno, mas tende a crescer
P: Uma desvalorização da moeda com inflação prejudicaria os mais pobres...
R: Se todas as melhoras que recaíram cobre o salário real, ajustado pela inflação, cresceu o índice de desiguldade entre 2003 e 2007, mas depois houve um equilíbrio. Uma desvalorização a essas altura implicaria na queda do salário real. Para começar, o governo tem de começar a reconhecer a inflação existente. As políticas antinflacionárias têm componentes coercitivos. Para coordenar uma política de preços e salários, é necessário que o governo que compnha os acordos entre empresários e sindicatos meça a inflação e assegure que a inflação futura será menor que a atual.
P: Os acordos de preços entre o governo argentino e os supermercados estão baixando a inflação antes da negociação dos salários...
R: As pessoas não são bobas. Por quê vão firmar um acordo que aumenta os salários em 20% a 255? É como se a inflação oficial não existisse. A principal estupidez foi manipular os dados estatísticos por que isso levou a um isolamento financeiro.
P: E o resto da América Latina?
R: Brasil, Bolívia e Equador têm políticas mais consistentes. O Equador segue dolarizado, com um regime ultraortodoxo. E há os países com metas de inflação ante o FMI, além disso há controle de capitais para enfrentar o excesso de chegada de capitais que , no caso do Brasil, gera a apreciação do Real. Com variações, a maioria dos países se mantêm dentro das metas de inflação. Exceto na Argentina e Venezuela, não há nenhuma das condições que levaram à crise da dívida externa. O Brasil se deu conta de que os efeitos negativos da depreciação chegaram antes dos efeitos positivos e o Real voltou a ficar abaixo de 2 dólares.
P: Há modelos de desenvolvimento?
R: Não, porque as políticas não vão trazer desenvolvimento. E nem diversificação tecnológica, a incorporação de setores tecnológicos mais modernos. Isso acontece pela industrialização, como se pode ver com o Japão, Cingapura, Indonésia, Coreia do Sul.
P: Aonde conduz então a experiência latino-americana?
R: Nãos abemos, o futuro é incerto. O Chile, por exemplo, tem a economia pior que há 23 anos, quando assumiu Pinochet. Na Suécia havia a indústria da madeira, então surgiu a Ericsson. Na América Latina não há Ericsson. A Suécia é uma economia de 9 milhões de pessoas, pouco maior que o Uruguai. Há países que têm sido mais conservadores com o crescimento do que a Argentina. Porém é preciso entender que manipular as estatísticas não é heterodoxia, mas um delito. Exageraram com as políticas antinflacionárias, mas tampouco podemos pensar que a inflação é má a todos os países, menos ao nosso. Teremos que aplicar uma política heroica para baixar a inflação em um dígito. Em 2002 adotamos o câmbio flutuante, mas em 2007 não quisemos frear a inflação.
