Último dia do XXIV Fórum Nacional discute a urbanização das favelas
O último dia do XXIV Fórum Nacional, realizado no prédio do BNDES, no Rio, discutiu a transformação das favelas em oportunidades para o desenvolvimento do país, e contou com a presença de representantes de diversos setores da sociedade, além de lideranças das comunidades Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Rocinha, Borel e Manguinhos. O painel também aproveitou para promover o lançamento do livro “Favela como Oportunidade”, dos pesquisadores Marilia Pastuk e Vicente Pereira Jr e coordenador pelo ex-ministro do Planejamento Joao Paulo dos Reis Velloso, moderador da mesa.
Abrindo os trabalhos, o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, lembrou a tradição da Arquidiocese de trabalhar juntamente às pastorais sociais. Dom Orani observou que os tempos estão mudando e que a melhor coisa a se fazer é ouvir às pessoas.
“Sabemos que precisamos ouvir a comunidade, porque aquilo que já aprendemos nos vários trabalhos sociais está mudando. Nesse novo momento, de novas situações, temos que continuar ouvindo as pessoas para continuar aprendendo. Sabemos que a cidadania deve ser implementada em todos os âmbitos, da habitação, educação, cultura, saneamento básico, lazer, entre outros”, defendeu o religioso.
O vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, fez menção à sua cidade natal, Piraí, no interior do Estado, cuja população não passa dos 25 mil habitantes. Ele contou que em 2007, alguns dias depois de tomar posse, se deparou com uma profunda violência nunca antes vista ao caminhar pelo Complexo de Manguinhos. Segundo ele, sua cidade, apesar de ter quase três vezes menos habitantes, contava com muito mais infraestrutura. Pezão atribuiu a falta de políticas públicas à transferência da capital para Brasília, em 1960.
“Nenhuma cidade sofreu tanto com as políticas publicas quanto o Rio de Janeiro. Tudo que tem em Brasília, a maior renda per capta do Brasil, saiu de dentro do Rio. É muito difícil uma cidade se reerguer e nós pagamos o preço até hoje. Temos verdadeiras cidades sem nenhuma estrutura”, criticou.
O peemedebista analisou a importância da emissão dos títulos de propriedades aos moradores das comunidades que estão sendo pacificadas ou recebem investimentos do Programa Nacional de Desenvolvimento (PAC).
“Quando a pessoas tem a garantia que aquele bem é seu, pode se empenhar para melhorar sua casa, sua comunidade. A gente titular a moradia é muito importante”, finalizou.
A pesquisadora Marilia Pastuk salientou a importância da valorização das lideranças comunitárias, que estão tendo a oportunidade de mostrarem que estes territórios têm donos que sabem o que querem. O livro “Favela como Oportunidade” é um coletivo de propostas a serem implementadas em cinco comunidades do Rio de Janeiro. Segundo ela, ao conversar com os moradores destas comunidades, algumas preocupações são comuns.
“Essas lideranças estão fazendo um esforço para resgatar a memória de suas comunidades para caracterizar sua identidade, já que as políticas públicas costumam ser padronizadas. Outra preocupação é que todas essas políticas tenham prazo de validade: as Olimpíadas de 2016. O limite da atuação da polícia e sua interferência na vida comunitária também são citados na maioria das vezes”, explicou.
Já os líderes comunitários levaram seus pontos de vista internos, causando reações mais emocionadas da plateia.
“Vou fazer 41 anos no mês que vem e sempre vivi em comunidades. Posso dizer que tive uma infância perfeita nestes lugares. Mas conforme fui crescendo a violência foi aumentando e fomos perdendo tudo o que tinha de bom”, relatou Sifney Tartaruga, presidente do Museu de Favela, no Cantagalo, museu que visa resgatar a memória da comunidade.
