Quando a faculdade exige crédito para estudar

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Octavio Azeredo, Jornal do Brasil

RIO - A modalidade de crédito educativo movimenta cerca de R$ 7 bilhões por ano no Brasil, segundo a empresa do ramo Ideal Invest. Mas, com apenas 10 anos de existência no mercado brasileiro, o financiamento estudantil atinge 6,9% dos alunos do ensino superior, ou 250 mil estudantes, de acordo com levantamento do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no estado de São Paulo (Semesp), com base nos dados do último censo do Ministério da Educação (MEC).

Outro dado relevante é que 20% dos tomadores de crédito estudantil recorrem ao financiamento das instituições em que estudam, pela dificuldade na aprovação do crédito. Projeções do Semesp indicam que haverá 5,8 milhões de estudantes no ensino superior em 2013, sendo 4,4 milhões em faculdades particulares. Com mais opções de crédito, o Brasil poderia chegar a 11,4 milhões de matrículas em três anos, estima a entidade.

Em 2008, ingressaram em cursos de graduação 1,9 milhão de alunos, alta de 8,5% em relação a 2007. Atualmente, são 4,88 milhões de estudantes no ensino superior brasileiro.

Cátia Santos da Silva conseguiu continuar na faculdade de veterinária graças ao crédito educativo privado. Ela entrou no curso, mas tinha dificuldade para pagar as mensalidades. Tomou conhecimento do financiamento estudantil da Ideal Invest por um prospecto na faculdade. Com juros de 1,69% ao mês, ela paga cerca de R$ 450 com o crédito, menos de um terço do valor da mensalidade, de R$ 1.500.

Minha expectativa é terminar de pagar o financiamento em até dois anos depois depois da graduação estima Cátia.

Mas a futura veterinária apontou as dificuldades para a tomada do crédito. Segundo Cátia, o que a ajudou foi a adega da qual é proprietária com o marido. A Ideal Invest pediu comprovação de renda duas vezes maior que a mensalidade da faculdade.

Já o crédito educativo oferecido pelo governo vinculado ao Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) do MEC exige comprovação de falta de renda. O sistema cobre até 70% do valor do curso, que passa a ser pago depois da conclusão dos estudos. O governo oferece crédito para estudantes de todas as idades e pode ser requisitado após o término do segundo grau ou durante qualquer semestre do curso universitário. A gestão do financiamento é da Caixa Econômica Federal, que cobra juros de 3,4% ao ano.

Para financiar o curso todo, é preciso comprovar renda:

Considerado o maior crédito privado do Brasil, o Pra Valer, da Ideal Invest, permite ao estudante financiar até 100% do curso no dobro do tempo de duração. Uma faculdade de quatro anos pode ser paga em até oito anos, com juros médios de 1,69% ao mês. Atualmente, o programa, criado em setembro de 2006, conta com 420 mil alunos que já usaram o financiamento em 173 instituições parceiras da empresa. Os juros variam de acordo com o curso e com a instituição de ensino.

A principal diferença entre o crédito oferecido pelo governo e pelas empresas privadas é o pré-requisito para o empréstimo explica Rafael Baddini, diretor de relacionamento da Ideal Invest. Para o governo, é necessário comprovar baixa renda, mostrar que não pode mesmo pagar a faculdade. Já para nós, é preciso comprovar uma certa renda por mês.

Baddini explica ainda que as pessoas que costumam utilizar esse crédito têm características bastante definidas.

A maioria é composta por jovens adultos, entre 23 e 25 anos, que trabalham e têm renda média mensal de R$ 960 informa Baddini. Ou seja, são alunos que postergaram o desejo de ingressar na faculdade, possivelmente por questões financeiras.

Primeira graduação na familia

O mais alarmante é que aproximadamente 66% dos alunos que usam o programa serão os primeiros da família a ter curso superior, se concluírem a graduação. Ainda há um contingente significativo da população que necessita de crédito educativo mas não pode ser atendida pelo governo, por não ser de baixa renda. Para este público, resta o financiamento privado. O impacto deste movimento é relevante, porque a graduação é uma alavanca importante para o aumento da renda.