A invasão dos produtos chineses deve continuar
Marta Nogueira, Jornal do Brasil
RIO - A expectativa pelo fim da invasão de produtos chineses desvalorizados no comércio mundial não deve se concretizar. Economistas acreditam que a apreciação do yuan será pequena; o necessário para estabilizar o mercado interno e conter a inflação do país asiático. A divulgação da maior flexibilidade do yuan pelo Banco Popular da China no sábado uma semana antes da reunião do G-20 (20 maiores economias do mundo) soou ainda como jogada estratégica do país para se livrar de críticas internacionais.
O yuan subiu 0,42% segunda-feira, para 6,7976 por dólar o maior valor desde a mudança cambial de julho de 2005, quando a China permitiu que a taxa de câmbio valorizasse 20% em relação à moeda americana. A medida durou até julho de 2008, momento em que o BC chinês fixou o dólar em 6,8 yuans para ajudar a indústria manufatureira a conservar os postos de trabalho durante a crise.
Entretanto, valorizações de até 5% não devem trazer grandes impactos para o resto do mundo, explica o professor de economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) Giorgio Romano Schutte. Para ele, seria necessário uma apreciação em torno de 20%, como ocorreu no passado.
Mas vivemos um momento diferente, com a crise na europa provocando a desvalorização do euro analisa Schutte. Além disso, a queda das vendas da UE para países como EUA e Brasil são uma oportunidade de entrada maior dos produtos chineses.
Juros e compulsório
O ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas, destaca que a China, preocupada com a inflação, já sinalizou a necessidade de mudar sua política monetária, com o aumento dos juros e do compulsório. Quando o país produz em grande escala para a exportação e também dificulta a entrada de mercadorias extrangeiras, por causa do câmbio desvalorizado, a demanda fica maior que a oferta, o que provoca o aumento dos preços.
A China não está se curvando às necessidades das economias mundiais, e sim, cuidando da saúde interna do país analisa Carlos Thadeu. A valorização do yuan deve acontecer lentamente, mas mesmo assim pode trazer reflexos positivos para o Brasil.
Produtos brasileiros como eletroeletrônicos, brinquedos e calçados vão ficar mais competitivos internamente, aponta o professor da FGV Management Robson Gonçalves. Os exportadores de soja, aço e minério de ferro para a China também serão favorecidos com o yuan mais caro, lembra o economista.
As reservas internacionais da China são de cerca de US$ 2 trilhões, patamar mais que suficiente para o país promover uma alta cautelosa da moeda.
Gonçalves disse que o BC chinês apresentou uma situação pronta, típica de um regime fechado, e não deu detalhes do que vai acontecer, sem propor uma negociação . Segundo o professor, provavelmente os chineses já sabem a margem de flexibilização da moeda e só vão divulgar quando for mais oportuno.
Para Gonçalves, a pressão dos EUA para a apreciação do yuan é dúbia. Os dólares acumulados pela China também favorecem os americanos. Muitas fábricas americanas, e até mesmo grandes redes de comercio, estão instaladas em território chinês.
