Nos EUA, condomínio vai ajudar a bancar preservação de parque
Susan Stellin, Portal Terra
DA REDAÇÃO - Os inquilinos de San Francisco em breve passarão a contar com uma opção incomum de moradia: um edifício de apartamentos de luxo com 154 unidades construído no interior de um parque nacional. Por 30 anos, o imóvel foi um hospital abandonado, com as paredes completamente pichadas, onde invasores passeavam pelas salas de operações e tiravam fotos das gavetas vazias do necrotério.
A reabilitação do edifício construído 78 anos atrás como Public Health Service Hospital é o mais ambicioso projeto de renovação conduzido até o momento pelo Presidio Trust, uma agência governamental criada em 1996 para cuidar do Presidio, uma antiga base militar em San Francisco que se tornou um parque nacional com área de 600 hectares.
Mas ao contrário da maioria dos parques, o Presidio abriga cerca de 800 edificações, mais de metade das quais parte do patrimônio histórico nacional. Preservar e manter os antigos alojamentos de soldados e oficiais, estábulos e outras estruturas vem sendo um desafio dispendioso.
Ainda mais preocupante é o fato de que as verbas federais para a área devem se esgotar no final de 2012, e a essa altura o Presidio Trust precisará se sustentar sem ajuda, usando a renda obtida com locações comerciais e residenciais dos edifícios renovados na área.
"Estamos a caminho da auto-suficiência em dois anos -e cumpriremos o prazo", disse Craig Middleton, diretor executivo do Presidio Trust. "Faturamos US$ 70 milhões no ano fiscal de 2009, e 95% do total veio das locações". O orçamento anual do Presidio é de US$ 56 milhões, gastos com manutenção de edifícios, paisagismo, custos de água e eletricidade, estradas, segurança e despesas administrativas. A receita com as locações varia dos US$ 9 milhões ao ano pagos pela Lucasfilm para usar o Letterman Digital Arts Center, um complexo de nove hectares no local que abrigava o Letterman Hospital, ao aluguel mensal de US$ 1,7 mil cobrado por apartamentos modestos na antiga base. No começo de abril, uma antiga casa de oficial com seis quartos e vista para a baía de San Francisco estava disponível para locação por US$ 9,58 mil mensais.
Embora o Presidio Trust tenha realizado muitas renovações sozinho, para o projeto de reforma do antigo hospital formou parceria com a incorporadora Forest City Enterprises; o edifício remodelado será inaugurado dentro de algumas semanas com o nome de Presidio Landmark.
O complexo de apartamentos com seis andares, na ponta sul do parque, oferecerá apartamentos de um ou dois dormitórios e todas as comodidades modernas, entre as quais porteiro, equipamento de cozinha em aço inoxidável, pias de granito, academia de ginástica, adega e salão comunitário.
Os inquilinos terão acesso fácil às trilhas de caminhada e bicicletas do parque, vistas bucólicas -algumas das quais para o mar- e uma área verde que ajuda a atenuar o ruído da cidade. Também disporão de um dos mais cobiçados bens em qualquer ambiente urbano: uma vaga para estacionar.
Mas os detalhes que tiveram de ser resolvidos no projeto do estacionamento ilustram os desafios que precisam ser enfrentados por incorporadores envolvidos em um projeto dentro de um parque nacional.
"Tínhamos de projetar o estacionamento de modo a que os faróis dos carros não incomodassem", disse Alexa Arena, vice-presidente da Forest City, ao me conduzir em visita ao local, no mês passado.
Capuzes em forma de pires, posicionados por sobre os postes de luz, minimizam a luz que escapa para o parque, à noite, e anteparos nos limites do estacionamento impedem que o clarão dos faróis se espalhe. Outras regras restringiam demolições durante as temporadas de acasalamento de pássaros, e impunham o uso de plantas locais no paisagismo.
A função original do hospital significou outros desafios para a renovação. A largura original dos corredores tinha de ser mantida, disse Arena, e há marcas pintadas nas paredes para mostrar os locais de onde portas foram removidas. Em alguns casos, paredes de tijolos tiveram de ser revestidas, porque nos anos 30 não era costumeiro manter paredes de tijolos aparentes -se bem que restos de pichações ainda visíveis em algumas paredes representassem outra história que será encoberta.
A Forest City demoliu duas alas acrescentadas ao hospital nos anos 50, em parte como resposta à preocupação da comunidade quanto ao plano original de criar 350 apartamentos no local. O edifício fica em uma área do Presidio que passou décadas abandonada, e por isso, embora o hospital fosse considerado por quase todos como muito feio, alguns vizinhos estavam preocupados com o tráfego adicional que um grande edifício de apartamentos poderia gerar.
Mas o projeto em escala menor pode ser vantajoso em um período de dificuldades econômicas. Ainda que os valores dos aluguéis não tenham sido anunciados até agora, Kevin Ratner, presidente da Forest City Residential West, disse acreditar que encontrar inquilinos não seria problema, dada a localização.
Middleton disse que nas unidades residenciais do Presidio, em geral apartamentos grandes construídos para famílias militares, o índice de ocupação é de 97%. Cerca de três mil pessoas vivem no parque, hoje, e a preferência de locação é para funcionários de empresas instaladas no Presidio. Entre 12% e 19% dos apartamentos têm seus preços de locação baseados na renda dos inquilinos, disse Middleton, mas as unidades do Presidio Landmark terão aluguéis de mercado.
Tradução: Paulo Migliacci ME
