Norte e Nordeste aguardam ingresso da Venezuela no Mercosul
Raphael Zarko, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Já aprovado no Uruguai, na Argentina, em vias de passar pelo Congresso brasileiro e faltando apenas o ok do Paraguai, a entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul (Mercosul), processo que se estende desde 2006, pode equilibrar a participação na balança comercial dos estados da região Norte e Nordeste do país. Em 2008, quase metade das exportações para a Venezuela (mais de US$ 2 bilhões dos cerca de US$ 5 bilhões) vieram da indústria paulista, com boa parte do restante entre outros estados do Sudeste e sulistas.
Ao todo, são mais de 2.300 empresas nacionais que vendem seus produtos para o país do presidente Hugo Chávez. Com poucas chances de concorrência com os estados do sul do país a distância e a logística não ajudam nos negócios com os países já pertecentes no Mercosul, a proximidade com a Venezuela representa novas oportunidades para os estados do Norte e Nordeste.
Hoje, o Mercosul atende mais aos interesses dos estados do Sudeste e do Sul do país. Nós acreditamos que com a adesão da Venezuela, os negócios entre os países poderiam duplicar, chegando a US$ 10 bilhões. E uma parcela importante virá do Norte e Nordeste aposta o presidente da Federação de Câmaras de Comércio e Indústria Venezuela Brasil (Fecamvenez), José Francisco Marcondes. Só a refinaria da Petrobras (prevista para meados de 2010) já vai implicar a importação de derivados de petróleo da Venezuela.
Um bom exemplo de dependência do mercado vizinho pelos produtos brasileiros e dos benefícios diretos com a entrada venezuelana no Mercosul encontra-se no estado de Roraima, que tem 213 km de divisa com a Venezuela. Laerte Oestereich, presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Roraima, estima que 90% das exportações do estado vão para a Venezuela.
Clientes de lá vão deixar de pagar impostos e tarifas dentro do Mercosul. Vamos ficar mais acessíveis a eles. Nosso governador e o governador de Bolívia (estado venezuelano fronteiriço) se encontram oito vezes por ano para discutir esses assuntos, essas facilidades.
Em 2008, o estado de Roraima exportou US$ 5.917 milhões para a Venezuela, e importou US$ 1.620 milhão. Laerte espera que esses valores possam até triplicar com a chegada do país vizinho ao Mercosul:
Pode ser pouco o quanto vendemos por ano para eles, mas é fundamental para a gente. Eles são carentes de produtos brasileiros, e acredito que não teremos concorrentes de soja e madeira. Deles vêm principalmente produtos alimentícios que não pesam na balança comercial.
Para o presidente da Câmara de Comércio e Indústria do Pará, José do Egypto Soares Filho, a parcela de participação dos estados que representa deve dobrar, atingindo 40%, com o ingresso venezuelano no Mercosul. Ele confia na localização privilegiada da região para negociar com outros países até na América Central. Só o Pará, em 2008, exportou US$ 334 milhões, ante US$ 1.920 milhão de importações venezuelanas.
Será muito interessante para o Norte porque cria uma mesma regra de comércio no Mercosul. Nos últimos três anos cresceu muito o transporte de bovinos para reprodução à Venezuela. No Pará um dos maiores rebanhos do Brasil.
Egypto acredita em benefícios na logística de transporte da região.
Exportamos mais de US$ 10 bilhões por ano. De importações, temos quase US$ 1 bilhão e não entra nada por aqui. Perdemos R$ 200 milhões só de ICMS.
Um corredor de exportação para as ilhas do Caribe
Na balança comercial brasileira, o peso dos produtos derivados de petróleo ainda é evidente. Das dez principais aquisições anuais de demanda dos empresários e governo brasileiros, seis vêm do setor. A maior parcela (31,56%) é de naftas para petroquímica , com mais de US$ 122 milhões de movimentação financeira entre janeiro e setembro desse ano.
Diretor-executivo da Câmara de Comércio e Indústria Venezuelana Brasileira (CCIVB), Fernando Portela, considera que o ingresso no Mercosul beneficia as relações burocráticas nas negociações entre os dois países.
Para o Brasil, nós seremos o corredor de exportação para o Caribe. Em longo prazo teremos acordos e convênios entre os dois países, para consumir produtos de algumas áreas, como agricultura e tecnologia, para o nosso desenvolvimento industrial. Do outro lado, o Brasil precisa firmar sua matriz energética e levar transmissão de dados (através de fibra ótica) para os Estados de Roraima e Amazonas.
Além disso, nossos poços de gás vão ficar acessíveis aos Estados do Norte brasileiro afirma Portela, que cita o interesse do mercado venezuelano nos eletrônicos da Zona Franca de Manaus.
José Francisco Marcondes, presidente da Fecamvenez, concorda com a extensão das vantagens além do país venezuelano.
A proximidade vai atrair unidades produtivas de outros países, seja da América Central ou mesmo da Colômbia, para usufruirem dessa infra-estrutura e se instalarem tanto do lado brasileiro como do venezuelano.
As carnes brasileiras figuram entre os principais importados da Venezuela. De janeiro a setembro, foram mais de US$ 400 milhões de carnes de frango, bovinos vivos e desossados. Acessórios de celular e pneus para caminhões também atraem as empresas venezuelanas.
