Refeição de contrastes
Raphael Zarko e Marta Nogueira, Jornal do Brasil
RIO - Freio da inflação nos últimos meses, os preços dos alimentos nos supermercados contrastam com os valores exibidos nos cardápios dos restaurantes. Os gastos com alimentação fora de casa cresceram nos últimos meses, enquanto o custo dos produtos recuaram nas gôndolas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o paradoxo se deve a um repasse tardio de preços nos estabelecimentos.
A estabilidade no preço dos alimentos nos supermercados segurou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que recuou de 0,24% em julho para 0,15% em agosto. Foi a menor inflação dos últimos três anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Alimentos básicos como arroz e feijão vêm aumentando menos que o grupo como um todo. Mas os restaurantes, por exemplo, vêm diluindo esses acréscimos aos poucos. Então, enquanto tivemos, de janeiro a agosto, aumento de 1,28% no preço de alimentos e bebidas, a refeição fora do domicílio puxou esse índice, com 6,10% do cardápio, que pode incluir uma cerveja, o café, um lanche diz a economista do IBGE, Eulina dos Santos, responsável pela pesquisa.
Morador da região metropolitana de São Paulo, que teve o maior aumento do IPCA do país (7,20%), Gabriel Gil Carregal, de 25 anos, trocou o Rio pela capital paulista há seis meses. Ele sente a diferença nos gastos com comida entre as duas cidades:
Em São Paulo gasto em torno de R$ 20 por dia. No Rio, eu conseguia comer por R$ 15. Sem dúvida está mais caro aqui. Um exemplo é a padaria perto do meu trabalho, onde custa R$ 5 um sanduíche com queijo minas diz o publicitário.
Mas no Rio, a quarta entre as regiões metropolitanas que tiveram maior variação de preço de alimentação fora de domicílio (4, 22%), os cariocas também percebem gastos crescentes na alimentação. O gerente de empresa de mídia Sandro Degasperi, de 32 anos, come em restaurantes quase todos os dias e apenas uma ou duas vezes por semana em casa. Ele relata que realmente notou um aumento gradual dos preços dos restaurantes nos últimos dois anos.
Por mês eu gasto em média de R$ 500 a R$ 600 com almoço na rua, mais ou menos R$ 30 por refeição. Há uns dois anos gastava em média uns R$ 400, com mais um menos uns R$ 20 reais por refeição disse Sandro.
O economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) André Braz defende que os estabelecimentos de comida tiveram que reajustar os preços de seus cardápios mesmo com a queda de alguns alimentos no varejo porque muitos de seus custos estão relacionados aos gastos com serviços.
Quem está à frente de um estabelecimento desse tem que pensar também no custo do salário de seus funcionários, na variação de tarifas públicas. Em algum momento ele tem que repassar esse reajuste diz o economista Mas claro que sai muito mais barato aos que tiverem restrição de renda levarem seu alimento de casa.
A médica Graziella Mendonça, de 27 anos, que ontem almoçou em um shopping do Leblon, prefere economizar comendo em casa.
Até porque também achei que os preços dos alimentos subiram levemente. Embora eu também não tenha deixado de comprar nada por causa disso.
Outros gastos
A alta de 0,15% do IPCA de agosto levou a um indicador acumulado de 2,97% em 2009. De janeiro a agosto de 2008, o índice registrou variação de 4,48%.
Os grupos de Despesas Pessoais, Educação, Habitação, Saúde e Cuidados Pessoais e Vestuário, respectivamente, foram os que tiveram as principais contribuições para o índice. Separadamente, os custos com residência e aluguéis tiveram deflação na comparação de julho para agosto. No mesmo ritmo e impulsionados por menores passagens aéreas e automóveis usados, Transportes caiu de 0,14% para 0,11% negativo. Na Educação, a variação para esse mês foi de 0,83%, com altas de até 1,95% para cursos diversos.
No setor de vestuário, o índice subiu de 0,01% negativo em julho para 0,13% de agosto, mês que marcou o fim do período de liquidações.
