Inadimplência sobe quase 6% e atinge bancos
Ludmilla Totinick, Jornal do Brasil
RIO - A subida da inflação em geral leva junto o aumento da inadimplência, principalmente nas camadas mais baixas da população brasileira. A facilidade de crédito geralmente é tentadora, mas nessa hora pode derrubar o orçamento se não houver equilíbrio no gasto. De acordo com o Indicador Serasa de Inadimplência Pessoa Física, nos cinco primeiros meses de 2008 houve aumento de 5,9% na inadimplência dos consumidores em comparação com igual período de 2007. De maio de 2008 a maio de 2007, cresceu 3%.
Dívidas com bancos lideram o ranking dos inadimplentes. As pendências com as instituições tiveram participação de 43,2% no indicador no acumulado de 2007 foi de 37,5%. Em seguida estão as dívidas com cartões de crédito e financeiras, com 31,7%, acima dos 31,2% de participação no mesmo período do ano passado. Os cheques devolvidos ficam em terceiro lugar, com 22,8% no acumulado do ano, de janeiro a maio de 2008, enquanto em 2007 representaram 28,6%.
A corretora de imóveis Andréa Queiroz, 37 anos, já renegociou duas vezes o financiamento do apartamento de dois quartos na Freguesia, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. O valor inicial da prestação era de R$ 500, depois das negociações subiu para cerca de R$ 659. O prazo do financiamento é de 300 meses. O valor atual do imóvel é de R$ 120 mil.
Andréa conta que fica muito nervosa quando se endivida sente-se desconfortável com a situação.
Fico muito agoniada e chateada desabafa Andréa. Ficar devendo é muito ruim.
Os problemas financeiros foram responsáveis pela falta de pagamento das prestações do imóvel financiado em 300 meses pela Caixa Econômica Federal (CEF).
Segundo a corretora, foi uma época difícil, pois não vendeu muitos imóveis e teve a renda reduzida. Assim, ficou complicado pagar as prestações.
A Caixa Econômica Federal incorporou os valores atrasados e os juros ao saldo devedor. Na segunda renegociação, há não muito tempo, Andréa tinha 12 prestações atrasadas.
O economista da Serasa Carlos Henrique de Almeida diz que o crescimento da inadimplência ocorreu pelo maior endividamento da população, do aumento da inflação e dos juros. Outros fatores que também contribuíram, segundo Almeida, foram os juros altos cobrados pelo cheque especial e pelos cartões de crédito.
Com a elevação da inflação houve aumento do aluguel e, principalmente, dos alimentos. Muitas vezes não sobra dinheiro para pagar as dívidas explica o economista. Percebemos maior incidência de devedores principalmente nas classes mais baixas da população, pois elas não estavam acostumadas com a facilidade de crédito e de consumo.
Almeida afirma ainda que há possibilidade de a inadimplência aumentar mais, porém o comportamento do emprego e da renda no país serão decisivos para que isso ocorra ou não. Segundo ele, ambos são responsáveis pelo poder aquisitivo da população. Almeida frisa que não se pode generalizar e acrescenta que o descontrole também ocorre nas faixas econômicas mais altas, mas em menor escala.
Uma pesquisa Termômetro de Vendas do Centro de Estudos do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDL-Rio), revela que as vendas do comércio crescerem 6,3% em maio. Porém, a modalidade de pagamento mais utilizada foi a venda à vista, com mais 6,9%, já que os inadimplentes recorreram a esse procedimento por falta de crédito no mercado.
O vice-presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), José Arthur Assunção, diz que o número de devedores teve oscilação de elevação e que a tendência é de aumento.
Pelo que a gente está vendo ainda vai piorar diz Assunção. Vem baixando há dois anos, mas há dois meses sobe. Preocupa essa percepção do aumento da inflação.
A recuperação do número de empregos no país foi responsável pela diminuição da inadimplência.
A crise do desemprego começou a dar sinais de recuo no segundo semestre de 2006, quando o comportamento das pessoas mudou, Elas deixaram de comprar para quitar as dívidas. O consumidor preferiu regularizar a situação explica Assunção.
O executivo destacou ainda que o ano passado foi muito positivo para as vendas em geral.
De acordo com o economista do CDL-Rio Fernando Mello, a inadimplência ainda não preocupa.
Se compararmos o nível de inadimplência dos últimos três meses com o volume de consultas ao crédito, perceberemos que ela está baixa ressalta Mello. Nos anos de 2004 e 2006, a inadimplência travou o crescimento das vendas completa, otimista em relação a recuperação do crédito no Estado do Rio, no segundo semestre.
Para o economista, as obras de infra-estrutura do governo federal vão gerar muitos empregos diretos e indiretos, e conseqüentemente aumentarão o consumo.
No Banco do Brasil, os créditos concedidos atingiram R$ 200 bilhões. Só em 2008, a carteira cresceu 18,7% e a inadimplência das pessoas físicas está em 5,8%. Um responsáveis pode ser o financiamento de veículos, que registrou volume de R$ 4 bilhões, com incremento de 150% nos últimos 12 meses.
