Brasil é exemplo do triunfo do pragmatismo, diz presidente do Bladex

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Agência EFE

MIAMI - O presidente-executivo do Banco Latino-Americano de Exportações (Bladex), Jaime Rivera, disse hoje em entrevista concedida à Agência Efe na abertura da assembléia anual da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban) que o Brasil é um exemplo do 'triunfo do pragmatismo' na América Latina.

Rivera, que é guatemalteco, opinou que 'surpreende e entristece que, enquanto se perde terreno comercialmente, discursos ideológicos de outra época ainda são defendidos na América Latina, pondo em risco, em última instância, o sistema democrático'.

- Felizmente, nossos povos demonstraram ser mais inteligentes e pragmáticos que seus líderes e empresários. O exemplo mais evidente é o Brasil, onde o povo permitiu a um Governo de esquerda ser eficiente em utilizar o modelo de livre mercado para melhorar o bem-estar da população - acrescentou.

Rivera concluiu que 'o caso do Brasil evidencia o triunfo do pragmatismo na região e demonstra que, na América Latina, o modelo de livre mercado é compatível com Governos de esquerda e de direita'.

Mas o presidente do Bladex alertou hoje para o fato de que, apesar do sustentado crescimento econômico, a América Latina está perdendo competitividade e corre o risco de ficar fora de um novo ciclo da história: o da revolução das tecnologias da informação.

As perspectivas econômicas da região e os efeitos da instabilidade nos mercados mundiais devido à crise provocada pelos empréstimos hipotecários de alto risco nos Estados Unidos serão alguns dos temas analisados pelos banqueiros presente na assembléia anual da Felaban, que começa hoje em Miami e vai até a próxima terça-feira.

Segundo Rivera, existe na América Latina 'uma posição macroeconômica sólida, e pela primeira vez em nossa história dispomos tanto de mercados de capitais próprios como de uma sólida liquidez local, uma combinação que, em certa medida, nos isola da turbulência'.

Entretanto, o presidente do Bladex acrescenta que esta situação favorável está rodeada por enormes nuvens negras pelo fato de 'a participação percentual relativa da América Latina no comércio mundial ter diminuído e, com isso, a região fica cada vez mais irrelevante no mundo'.

- Nos fóruns internacionais, por exemplo, a influência latino-americana está diminuindo, e agora existe o risco de que o destino da região seja determinado por outros. O atual momento é especial porque não se pode perder o atual ciclo da revolução das tecnologias da informação - disse Rivera, à frente do Bladex desde 2004.

A enorme demanda dos países asiáticos por matérias-primas está servindo de motor para o crescimento de países como Brasil e Argentina, mas, segundo Rivera, esse ciclo de expansão tem um limite e uma desvantagem: o sucesso do momento faz com que menos atenção seja dada à necessidade de desenvolver mais tecnologia e capital intelectual.

- É por isso que, apesar desse ritmo de crescimento médio de 6%, a América Latina está perdendo competitividade relativa. A região não está preparada para subir no novo trem do progresso, motivo pelo qual precisa urgentemente incentivar a educação, não apenas para melhorar as taxas de alfabetização, mas também na área acadêmica. Existem advogados de sobra, mas mais engenheiros são necessários.

Além desse déficit educativo, Rivera, de 54 anos, demonstra seu espanto pelo fato de a integração comercial na região não ser defendida com mais intensidade porque, a longo prazo, 'é uma questão de sobrevivência econômica'.

Segundo o guatemalteco, 'para poder competir no mundo, a integração comercial é necessária. Enormes vantagens competitivas poderiam existir em uma colaboração entre Estados Unidos e América Latina'.

- Bastaria que houvesse algum tipo de acordo comercial formal entre EUA e Brasil para gerar o impulso necessário para conseguir uma associação regional, capaz de competir com Ásia e Europa - acrescentou.

Esta urgência já está sendo detectada por alguns empresários porque, segundo Rivera, a longo prazo, 'os EUA não poderão competir com a China se continuarem investindo lá. Por que os EUA alimentam o dragão? Estrategicamente, é mais proveitoso investir na América Latina'.

Para que não existam dúvidas sobre as vantagens de estreitar os laços comerciais entre Estados Unidos e América Latina, Rivera diz que ideologias fruto 'de estratégias da Guerra Fria, nos dois lados da mesa de negociação', devem desaparecer.

Durante a assembléia da Felaban, Jaime Rivera insistirá na importância do Bladex no atual panorama financeiro internacional.

O Bladex, único banco multilateral exclusivamente latino-americano, formado pelos bancos centrais de 23 países e com um sistema público-privado de gestão, tem como principal objetivo incentivar as exportações da região.

- Somos um banco híbrido combinado entre Governos e investidores privados. Temos fins lucrativos, ações em Wall Street, competimos com os bancos internacionais ao mesmo tempo em que apoiamos as exportações latino-americanas - afirmou Rivera.

Na atual situação de incerteza nos mercados financeiros e com uma escassez de liquidez, uma das funções institucionais do Bladex é facilitar créditos para bancos e empresas 'e servir de ponte entre os mercados de capitais e a região'.