Valorização traz preocupações à economia
Almeida afirmou que a valorização cambial é prejudicial ao País e é resultado da política de juros. Além disso, o agora ex-secretário indicou também que o câmbio seria o responsável pela desindustrialização do Brasil.
"Para isso sair da boca de um dos principais colaboradores da equipe econômica, é porque este é um assunto que já começa a trazer preocupações para a economia", avalia Miguel Daoud, sócio da consultoria Global Financial Advisor.
Já para Mantega, a valorização do Real é resultado dos fundamentos da economia. Para o ministro, o câmbio não passa por uma valorização desenfreada e o Brasil vive no melhor dos mundos com inflação baixa, juro em queda e crescimento econômico.
Daoud aborda a questão do câmbio sob três aspectos. O primeiro deles é a questão do fluxo. De 2004 até março deste ano, o fluxo cambial ficou positivo em cerca de US$ 80 bilhões. Considerando as compras do Banco Central e o Tesouro Nacional no mesmo período, o desembolso chega a US$ 165 bilhões.
"Isso significa que o BC comprou muito mais dólares do que aqueles que entraram no mercado. Se isso acontece significa que a valorização do Real não se deve ao fluxo de capital", avalia.
Outro ponto, é o juro. Desde agosto de 2005 a Selic caiu de 19,75% para 12,75% e o câmbio seguiu apreciando.
O terceiro aspecto é a valorização cambial em si. Desde janeiro de 2004 o Real já ganhou cerca de 42% sobre o dólar, batendo em R$ 2,029 ontem.
"Mesmo com o BC comprando dólares e reduzindo os juros, a moeda sobe 42%. Alguma coisa está errada", diz o especialista. Segundo Daoud, o "milagre" está nas operações de derivativos. O investidor não precisa trazer fisicamente a moeda para operar em mercados futuros. Mas esta é uma questão que poderia ser revolvida com uma exigência ao investidor. A compra das duas pontas da operação, ou seja, que ao vender uma certa quantidade de dólares ele tivesse que comprar este mesma quantidade.
Para Daoud, uma pergunta que deveria ser feita é: qual o interesse do Governo em manter a valorização do real? "Ele usa a política cambial para auxiliar a política monetária? Até que ponto esta política não é desastrosa para o setor produtivo? Esta é uma pergunta que o ministro tem que responder?", indaga.
Outra questão, é qual o custo das reservas? Sabe-se que para comprar moeda à vista o Governo emite dívida e que as reservas têm um custo maior do que o rendimento que oferecem quanto reaplicadas. Além disso, quanto maiores as reservas, mais se atraem investidores atrás de operações de arbitragem, pois o elevado volume de recursos oferece proteção. Para Daoud, a situação é a seguinte: 'O BC com espingarda de chumbo combatendo investidores que disparam tiros de canhão'.
"A solução é o governo avaliar até que ponto esta política é benéfica para o setor produtivo. Mesmo nas economias com câmbio flutuante, se preza por manter uma moeda que não prejudique o setor produtivo. O Brasil tem tecnologia, organização. O que não pode é expor o setor produtivo a esta competição desenfreada."
A taxa de juros não é apenas um instrumento de combate à inflação, os juros refletem também os desequilíbrios do país. "Como a política monetária não é suficiente para combater estes desequilíbrios estruturais da economia o Governo lança mão desta política cambial, mesmo com a conseqüência desastrosa para o setor produtivo."
De acordo com Daoud, o caminho mais fácil seria a redução dos gastos do governo, que permitiriam o crescimento. "Usar da política fiscal para ajudar a política monetária e não a política cambial como auxiliadora da política monetária."
Esta discussão também recai sobre a questão do esperado grau de investimento, que tiraria da economia brasileira o grau especulativo. Segundo o especialista, o País só vai se beneficiar do investment grade o dia que tiver uma política fiscal responsável que canalize os investimentos para o setor produtivo. "A taxa de investimento segue baixa e os juros altos em decorrência dos problemas fiscais do governo. Só teremos uma taxa de juros civilizada com responsabilidade fiscal', conclui.
(Eduardo Campos - InvestNews)
