Não existe Selic para economia real

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SÃO PAULO, 6 de março de 2007 - Amanhã o Comitê de Política Monetária (Copom) apresenta a sua decisão sobre a taxa de juros. Independente do resultado, as entidades de classe, economistas e políticos irão bradar mais uma vez contra o conservadorismo do BC, que se apresenta como mais um entrave ao crescimento da economia ao cortar os juros com parcimônia. Mas para Miguel Daoud, sócio da consultoria Global Financial Advisor, a coisa não é bem assim. "Não tem por que o mercado ficar discutindo um corte de 0,25 pp ou 0,5 pp, quando o BC já reduziu a Selic em 34% desde setembro do ano passado e a taxa de juros da economia real segue exorbitante", avalia.

De acordo com Daoud, a Selic é uma taxa pela qual o BC se vale para fazer o gerenciamento da expectativa inflacionária. Na realidade, é uma taxa sintética para operações nos mercados futuros. Até a taxa que o governo paga para rolar sua dívida é cerca de 2,5 pontos percentuais acima da Selic. "A taxa Selic da economia real não existe. Para o crescimento não é taxa Selic, o que interessa é a taxa real."

O especialista chama a atenção para o fato de que desde setembro de 2005 a Selic já caiu 6,5 pontos percentuais, ou 33% - de 19,75% para 13% ao ano -, mas neste meio tempo, a taxa real, ou seja, aquela que você paga quando pede um financiamento caiu cerca de 1 pp ou 2 pp, apresentando uma média de 40% ao ano, de acordo com estudo do próprio BC. O juro real chega a variar 35% a 240%. "Isso mostra que, independe do BC cortar ou não a Selic, a taxa real não segue a mesma trajetória."

Em suposição extremada, para mostrar que a questão dos juros não é vontade do BC e sua diretoria, Daoud argumenta que se a Selic caísse para zero, mesmo assim a economia real não teria um juro inferior a 20% ao ano. Isso acontece, pois as operações de crédito e empréstimo já embutem uma carga tributária de 29%, o risco de inadimplência, mais o custo operacional e a margem de lucro do banco. "Isso resultará em uma taxa não menor que 20% e, mesmo assim, esta taxa segue impossível para a atividade econômica", avalia.

De acordo com Daoud, a queda da Selic, para ter reflexo na economia real, depende de medidas estruturais do governo. "Se o governo não fizer um ajuste de suas despesas, não cortar impostos, não acontece a redução do juro real. Temos uma poupança pequena e um governo que consome tudo", avalia.

Um sintoma disso é que se observamos a taxa de juros no mercado futuro, como a dos títulos do governo que vencem em 2010, a taxa de juros é igual à praticada hoje, mostrando que o mercado não acredita na redução dos juros. "Se o governo não sinalizar um plano de corte de despesas, a taxa de juros real da economia não cai."

Segundo o especialista, com o governo reestruturado fiscalmente, haveria espaço para redução dos impostos e liberação de recursos para, entre outras coisas, subsidiar o crédito à pequena e média empresa.

Hoje em dia, só grandes empresas têm acesso de fato aos financiamentos do BNDES. A grande massa não tem acesso ao recurso subsidiado. "Este dinheiro subsidiado tinha que ir para a economia mesmo, para o pequeno varejo e os prestadores de serviços, que geram emprego e renda. Só que este pessoal não tem acesso. Se quiser expandir seu negócio pagará no mínimo 60% de juros."

"Acho que o mercado tem que passar a discutir o real problema da taxa de juros, que não é o BC. A instituição só usa a Selic para gerenciamento de expectativa, não depende dela. Temos que adequar o País a uma dinâmica de crescimento. Não adianta colocar o BC como culpado", avalia.

(Eduardo Campos - InvestNews)