Um tiro no pé
Bancos trabalham com recursos de terceiros, mas o total de suas operações está relacionado ao patrimônio líquido (capital e reservas) de cada uma delas. Como o Brasil faz parte do Acordo de Basileia, essa alavancagem anda em torno de dez vezes o patrimônio líquido. Por isso os bancos não podem ter prejuízo. Se têm, o patrimônio líquido se reduz, e o total das operações autorizadas também. Com prejuízo, o banco encolhe, perde fôlego e fica tolhido. Com lucros polpudos, há o inverso.
Os juros cobrados dos devedores são exorbitantes no Brasil. Os bancos não abocanham tudo. Por isso, até abusam no que cobram pela prestação de serviços. Na administração de cartões de crédito, chegavam às raias do absurdo. Concorrentes mais ágeis entraram no mercado com suas maquininhas e as taxas de administração caíram. O comércio passou a aceitar cartões de débito numa boa. Está se reduzindo o número de comerciantes que dão desconto de 3% a 5% para pagamento em dinheiro ou cheque.
As taxas de juros são altíssimas, mas os bancos precisam que seus clientes estejam em dia. Se o cliente atrasa o pagamento por mais de 90 dias, o aumento da inadimplência obriga o banco a reforçar sua provisão para devedores duvidosos. É dinheiro que não pode ser emprestado. Se a inadimplência diminui, a provisão reverte para o lucro líquido.
A partir de um determinado ponto, os bancos partem para acordos com os devedores. Primeiro os ameaçam, é claro. Em vários casos repassam tais créditos para empresas especializadas em recuperação (abrem mão de grande parte do que teriam a receber, mas se livram da inadimplência; as empresas especializadas, negociam direto com o devedor e até se envolvem diretamente em alguma recuperação, ganhando bom dinheiro com isso).
Quem tem dívida alta já percebeu que é melhor deixar a bomba estourar. Perde temporariamente o crédito, fica com nome sujo na praça, mas chega a hora que o próprio banco joga a toalha. É uma queda de braço desigual. No entanto, é o único meio de os próprios bancos percebem que juros extorsivos são um tiro no pé.
