Fabricantes de armas já duelam pelo mercado
Monopólio da CBC/Taurus sob cerco da austríaca Glock, tcheca CZ, firmas árabes e a abertura geral
Mal foi regulamentada a posse de armas no Brasil, com cota de até quatro armas por cidadão, morador no campo ou em cidades com alto risco - o que estende a liberação para todos os 27 estados e o Distrito federal - e os principais fabricantes de armas leves de todo o mundo já travam um duelo pela conquista de espaço do mercado que promete se transformar num dos cinco mais fortes consumidores de armamentos privados do mundo.
Quinto país do mundo em extensão territorial e população, descontando a China, com 1,3 bilhão de habitantes, com rígido controle de armas pelo governo, e a pacifista Índia, também com 1,3 bilhão de almas, o Brasil, 4º exportador de armas de pequeno porte do mundo, tem tudo para disputar o 2º ou 3º posto como mercado consumidor, atrás dos Estados Unidos, o 3º em população (345 milhões de habitantes) e o 1º em armas per capita. A muçulmana Indonésia, 4º país mais populoso, com mais de 250 milhões de habitantes, tem índole pacifista, apesar de aplicar a pena de morte a traficantes de drogas.
Com a possível abertura do mercado de armas brasileiro, como prometido pelo presidente Jair Bolsonaro, que pode ganhar maior impulso com a regulamentação do porte de armas, que depende de Projeto de Emenda Complementar e 257 votos dos 513 deputados da Câmara, a disputa entre as grandes fabricantes globais já está engatilhada no país. O mercado brasileiro de armas leves é muito pujante. Em 2018 o total de portes de armas registradas junto à Polícia Federal aumentou 50%, saltando de 5.748 portes em 2017, para 8.639 portes, em 2018.
Mas o grande mercado era limitado às forças armadas e aos efetivos das polícias civil e militar. Na esteira da intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro, em 2018, que se espalhou para outros estados em 2019, houve o interesse de novos fabricantes se instalar no Brasil. Até então um mercado dominado pelo monopólio da CBC/Forjas Taurus, que acaba de mudar o nome para Taurus Armas. Mercado que tende a alargar consideravelmente com a posse e a possível aprovação da PEC sobre porte de armas.
Monopólio de duplo calibre
O mercado brasileiro de armas leves e munições era um virtual monopólio dominado pele mesmo grupo, do empresário Daniel Birman, por diversas vezes condenado por operações irregulares no mercado de capitais pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado. A Companhia Brasileira de Cartuchos que pertence ao empresário gaúcho Daniel Birman, é o maior fornecedor de cartuchos para armas no Brasil, e desde 2014 assumiu o controle da Taurus. Com 1.800 trabalhadores, ela tem fábricas em Rio Grande do Sul, Paraná e Bahia, uma unidade produtora em Miami (EUA) e revendedores espalhados pelos 26 estados e mais o Distrito Federal. A empresa esteve sob ameaça de dois concorrentes recentes. A primeira era a suíça Ruag, fornecedora de munição que conta com participação do governo Suíço e que, desde 2017, manifestou interesse em investir na construção de uma fábrica em Pernambuco. O monopólio da CBC se agitou. Mobilizou apoios no Congresso e na imprensa, mas o projeto foi arquivado por decisão do governo dos Alpes, que o considerou prejudicial à reputação pacifista do país, pois ajudaria a ampliar a estatística brasileira de 63 mil mortes por armas em 2018, a maior parte por armas de fogo. Outro fabricantes de armas cuja atuação no Brasil iria concorrer com o duopólio é a Caracal, dos Emirados Árabes Unidos. O projeto seria instalado em Anápolis (GO), mas foi arquivado em 2018. Mas poderá renascer, já adaptado à nova realidade do mercado brasileiro, sob o comando da DFA, a Arex Rex FireArms, que pretende produzir rifles e armamento leve. A empresa já tem um prédio para dar início às operações, mas falta a unidade fabril. Outra fábrica de olho no Brasil é a CZ, da República Tcheca, que produz armas automáticas e rifles de precisão.
Um caso emblemático
A austríaca Glock venceu no fim de 2018 edital do Gabinete de Intervenção Federal (GIF) e vai fornecer 27.424 pistolas .40 às forças de segurança do RJ, num contrato de R$ 40 milhões. Para colocar o pé no mercado brasileiro, a Glock ofereceu seu armamento por US$ 395 a unidade, US$ 29 abaixo da proposta da 2ª colocada, a americana Sig Sauer. Após o resultado, a Sig Sauer e o 3º colocado, a também americana CTU, entraram com recursos questionando o preço baixo da Glock.
Em sua defesa, a Glock alega que vendeu as armas no Rio a um preço competitivo dada a importância do edital, uma prática usada mundo afora no mercado. O contrato do RJ ganha importância por causa de um dispositivo da lei de licitações que incentiva a padronização dos produtos adquiridos pelo Poder Público. Isso abre a possibilidade de a Glock se tornar a pistola-padrão no estado. O GIF aceitou os argumentos da fabricante austríaca e encerrou o caso, ratificando o resultado.
Mas a história não acabou. A Glock entrou com uma representação criminal contra a Sig Sauer em que questiona as acusações e o caso pode evoluir para um processo por difamação. A Sig Sauer, por sua vez, entrou com um processo contra o GIF para parar o processo de compra. A Glock já vendeu cerca de 70 000 armas para órgãos públicos brasileiros, entre eles a Polícia Federal.
Uma saraivada especulativa
A Taurus Armas quase repetiu em 2018, a trajetória do Bitcoin em 2017. Naquele ano a criptomoeda chegou a se valorizar 1.700% alcançando o pico de US$ 1.880, mas começou a cair ainda em dezembro, quando a Bolsa de Chicago criou um mercado de futuro para dar liquidez e porta de saída aos superalavancados. Ano passado a moeda caiu 82%. Em 2018, as ações PNs da Taurus chegaram a subir 471%, saindo dos R$ 2,10 de janeiro para o recorde de R$ 12, em 19 de outubro, após a vitória de Jair Bolsonaro no 1º turno. Depois caíram para a faixa de R$ 8 e foram descendo até R$ 4,05, em 28 de dezembro, o último pregão do ano. E foi a campeã em valorização nas ações da B3.
Este ano, a empresa foi alvo de uma saraivada de movimentos especulativos. As cotações tinha cedido pelo lançamento de R$ 94,5 milhões em bônus no final do ano. Mas as ações preferenciais logo saltaram para o recorde de R$ 8,40 dia 4 de janeiro, uma alta de 107% em quatro pregões, na expectativa da regulamento da posse de armas. Logo após o anúncio do decreto, acompanhado da declaração do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, de que o mercado de armas seria aberto no país, houve venda maciça de ações pelos controladores, fazendo a cotação dos papéis PN cair dos R$ 8,30, dia 14, para R$ 6,50%, dia 15, baixa de 21,86%.
A próprio empresa, instada pela CVM, informou no dia 15 “que seu controlador, a Tauruspar Participações S.A., (controlada por Daniel Birman) fez venda de ações da própria companhia na terça, 15”. A Tauruspar vendeu em bolsa 260 mil ações ordinárias, ou 0,56% do total dessa classe, e 923 mil preferenciais, cerca de 3,27%. Assim, a participação total da companhia, que era de 85,06% do capital social votante passou para 84,50%. Em comunicado, a empresa explica que a transação foi feita para levantar recursos financeiros e não objetiva alterar a composição do controle ou a estrutura administrativa. Na prática, o ganho da empresa com a valroização foi suficiente para cobrir a subscrição dos bônus. Ontem, caíram 21,86%, fechando a R$ 5,08, menos 39% em dois dias. Valia o xerife do mercado intervir no ‘tiroteio’ antes que surjam vítimas.
