Romance “Correr com rinocerontes”, do gaúcho Cristiano Baldi, é uma paulada na cabeça do leitor

Por Cecilia Costa, ceciliacostajunqueira@gmail.com

O primeiro romance do gaúcho Cristiano Baldi, “Correr com rinocerontes”, publicado em meados de 2017 pela Não Editora, é uma paulada na cabeça do leitor. A primeira linha chega a ser filosófica: “o abismo da existência e o terror infinito de estar vivo...”. Depois vem a sucessão de adjetivos inclementes e de palavras sujas empregados por um homem raivoso consigo mesmo e com a Humanidade. Convocado pelo avô a ir a Porto Alegre – era mestrando em Letras em São Paulo – o narrador se diz um canalha, sacana, cafajeste, covarde.

Canalha porque entrara no avião sem telefonar para se despedir da namorada, a bela psicanalista Barbara. E covarde porque há anos evitava se reencontrar com a família. Através de retrocessos da memória, passamos a saber que em Porto Alegre havia um irmão deficiente, Igor, que mordia mãos até tirar sangue, as dele mesmo e as de um velho encontrado num cemitério, além de cometer inúmeras sandices que a mãe, muito bem educada, formada na Sorbonne, aceitava com resignação, fingindo que nada estava acontecendo de anormal. Com relação à própria mãe, tudo indicava que também não estava bem nos últimos anos. Entre os familiares, havia tios, o avô e a avó, mas a figura paterna era uma incógnita. 

Vamos entrando na narrativa, até que, devido a uma ocorrência num bar, onde uma mulher dava de mamar a uma criança de seis a sete anos, chega o palavrão com onomatopeia tão feia que tive vontade de largar o livro. Mas sou insistente e apesar do cagalhão, escrito várias vezes com suas letras em fogo, que berram no ouvido, continuei a ler. Afinal de contas já tinha ultrapassado o marco das quarenta páginas. Acho que sai ganhando com essa insistência, porque em seu livro Cristiano desnuda a hipocrisia reinante nas famílias da elite intelectual de Porto Alegre e também a que vige no país, criando um protagonista que, bem mais do que um covarde, é um ser impaciente com a babaquice geral - o palavrão neste caso é meu, apesar de Cristiano usar muito a expressão “babacas” neste seu primeiro livro, no qual corre muitos riscos, entre eles o de ter carregado nas tintas e com isso não ser aceito como verossímil.

Mas a indignação do narrador tinha toda a razão de ser. Fora o avô, que tentava manter o bom senso no meio do caos e que só recorre ao palavrão no final do livro, quando emocionalmente perde a paciência com o horror que estava sendo obrigado a vivenciar, ouvir e assistir, a família do protagonista era mesmo inimaginável de tão doentia. Apesar de que de certa forma todas as famílias o são. Quanto à elite, seja a de Porto Alegre, seja a de qualquer cidade, da qual fazem parte mulheres com colares de pérola, saltos altos e excesso de perfume, homens que medem a riqueza por carros de IPVA altíssimo, bebendo uísques envelhecidos, costuma ser realmente execrável. E o país então nem se fala, já que o livro é narrado por um brasileiro e, como sabemos, há muito o Brasil perdeu o rumo da ética e moralidade. Impacientes estamos todos nós.

O tempo vai e volta. Quanto aos espaços, além de Porto Alegre, a história se passa também em Gramado, onde prevalece a artificialidade. Com suas encantadoras casinhas bávaras iguaizinhas, grandes hotéis e flores intocáveis nas janelas, Gramado, onde o protagonista estivera quando adolescente com o avô, a avó, a mãe e Igor, é uma cidade, diz ele, que temos vontade de abandonar após três dias de visita, já que foi feita para arrancar dinheiro dos incautos turistas. E é justamente em Gramado que a história atingirá seu auge, com o conflito familiar chegando ao grau de tragédia. Já que é na piscina do hotel de luxo no qual se encontravam que o rapazinho vai perder a virgindade e que acontecerá um incidente com o irmão retardado que marcará a família para sempre.

Quanto a Porto Alegre, ele é bem cáustico, sempre mencionando a sujeira do Rio Guaíba, que não é um rio, como faz questão de lembrar, mas apenas um estuário. Cita ainda estupros, sujeira, mendigos que morrem de frio e milionários que com certeza não se preocupavam com os cadáveres de indigentes que enxameavam as ruas da cidade. Salvam-se, porém, o pôr do sol ao fim da tarde no Guaíba poluído, no qual Bárbara e o narrador viverão uma cena romântica, e a Feira do Livro, originada pela mania dos gaúchos por livro e leitura.

O sexo está nas páginas vivo como um personagem. Um sexo latejante, de masturbação e perversões, que é desvelado impiedosamente, já que o leitor não pode ser poupado de nada. Ser inconsciente, Igor não consegue controlar seu pênis. Já o narrador vai nos descrever suas inúmeras tentativas de ter prazer no banheiro, com seu “pauzão de judeu”. O que nos faz lembrar Philip Roth e o protagonista de “Complexo de Portnoy”, o livro com que este autor americano, recém-falecido, começou a alcançar a celebridade. Há uma influência, aliás, inegável de autores dos EUA, com o protagonista admitindo sua preferência por escritores americanos em detrimento dos europeus, leitura que seria de preferência do avô. Ou seja, como todos os jovens escritores brasileiros, Cristiano Baldi, pelo menos neste primeiro romance, pretende ser duro, seco, sem papas na língua, caminho que começou a ser aberto por John Fante e Bukowski. E antes deles pelos autores policiais, como Dashiell Hammet e Raymond Chandler, adeptos do policial hard-boiling (cozido).

Com isso, descobrimos que Bárbara é a rainha do boquete, mesmo sendo extremamente intelectualizada e bem preparada como psicanalista da linha lacaniana. Rainha não, porque uma mulher com dois anjos tatuados nas costas se diz a rainha, fazendo com que Barbara se apresente a moça angelical, no congresso no qual as duas se encontraram, como a segunda na especialização sexual. Uma espécie de “Princesa do Boquete”, portanto, para a felicidade de seu infeliz namorado mestrando em Letras. De acordo com Barbara, para resolver problemas cabeludos como um irmão retardado capaz das atitudes as mais horrendas possíveis, uma mãe que fica catatônica no meio do caminho da narrativa, não conseguindo mais conviver com o filho caçula, uma avó subitamente carola e uma situação escabrosa ocorrida na clinica onde a mãe estava internada, nada como uma felação. Visceral. Animal. Que não dê margens a pensamentos psicanalíticos. Apesar de que contraditoriamente Babs recomende inúmeras vezes uma boa e rotineira análise ao namorado, afundado em seus traumas familiares.

E como é que rapaz vencerá o trauma? Pressupõe-se que escrevendo o romance, é claro. Já que a melhor receita para se vencer traumas pessoais e evitar a loucura é escrever um romance. No qual serão escritos palavrões e a sujeira emocional será colocada no ventilador das palavras, espalhando-se pelo mundo. Porque o mundo é cão, bem o sabemos, e as emoções não nos deixam respirar em paz. Temos que nos livrar delas. E os rinocerontes? Eles aparecem pouco no livro. Um rinoceronte surreal como o de Ionesco ou apenas um rinoceronte comum que estava sendo esculpido em madeira na porta da delegacia, onde o caso da clinica onde a mãe catatônica fora estuprada estava sendo investigado com a incompetência habitual.

Enfim, “Correr com rinocerontes”, o primeiro romance de Baldi, não é livro para ler e sonhar. Fugir da realidade. Essa não era a intenção, muito pelo contrário. Quem for covarde não sai das primeiras páginas. Quem for mais corajoso, vai para São Paulo, ao final da trama, estuda, escreve e se diverte sexualmente com Barbara, a exímia libertadora das tensões criadas pela miséria humana. 

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O MISTÉRIO DO TALENTO

“Correr com rinocerontes” está indo para a segunda impressão, segundo a Não Editora informou a Cristiano Baldi. O escritor gaúcho, por sua vez, já iniciou um segundo romance que será ambientado no sertão baiano. O texto, que já se encontra no segundo capítulo, está exigindo muita pesquisa por envolver um acontecimento histórico. 

Baldi é professor de Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ele informa que a cadeira tem oito professores e é procurada não só por alunos gaúchos, mas também por alunos que vêm do Rio e de outras partes do país, pois talvez a PUCRS seja a única universidade a oferecer este curso no Brasil, enquanto que no exterior várias universidades têm disciplinas similares já há muitos anos. 

 O autor inglês Ian MacEwan é um exemplo de escritor, aliás, que frequentou um curso de Escrita Criativa na University of East Anglia, tendo escrito um romance como tese de dissertação de mestrado em Literatura. No caso de Baldi, foi exatamente isso o que ocorreu. Foi quando estava cursando o mestrado em Escrita Criativa – agora está fazendo o doutorado – que escreveu “Correr com rinocerontes” como tese de dissertação. Já havia iniciado o livro várias vezes, mas somente quando deixou o ramo de publicidade e se dedicou à literatura é que teve condições de acabar o texto. A tese exige também uma explicação teórica. 

O autor de “Correr com rinocerontes” é professor de Escrita Criativa há dois anos. O curso inclui disciplinas teóricas e a prática, com a teoria objetivando dar ferramentas para que os alunos escrevam seus textos ficcionais. Cristiano Baldi admite, porém, que muita teoria pode atrapalhar a criação, já que existe uma parte de mistério em todo texto criativo ou arte. Ou seja, um texto pode ser muito bem escrito do ponto de vista do arcabouço ou conhecimento teórico e não ser um bom texto. Pois o que faz um livro ser bom ou ruim, comenta Baldi, está dentro da alçada do chamado de talento. E talento não se ensina. 

Sobre “Correr com rinocerontes”, ele informa que, fora o fato de morar em Porto Alegre, já ter visitado Gramado e gostar de escritores americanos, não tem nada a ver com o protagonista. Nem judeu é. A história foi toda ela inventada. Outros leitores já mencionaram que a parte da masturbação lembra “Complexo de Portnoy”, de Philip Roth. Mas ele só se lembra de ter lido o livro há muito tempo. Acontece que livros lidos, quando nos marcam, são assim mesmo. Passam a morar dentro de nós. Mais um mistério compartilhado por escritores, Baldi inclusive. 

*Jornalista e escritora