Muito além da Bossa Nova
Nara Leão ganha um musical sobre sua trajetória
Amigos de longa data, o jornalista e escritor Christovam Chevalier e a atriz e produtora Aline Carrocino conversavam informalmente, há cerca de três anos, quando o nome de Nara Leão (1942 -1989) surgiu como uma possibilidade de se transformar em musical. “Eu sempre achei que ela é uma figura esquecida dentro da história da música brasileira. Ela foi eclética, muito antes de este termo virar moda entre as cantoras dos anos 1990. Sua importância foi enorme para a nossa música e, mesmo assim, é retratada como idiota”, diz Christovam, idealizador do espetáculo “Nara - A menina disse coisas”, que estreia sábado no Teatro Ipanema.
Aline, que tocou o projeto como produtora, interpreta a cantora capixaba ao lado do ator Marcos França, co-autor do texto, que se desdobra nos papéis de Carlos Drummond de Andrade, Jairo Leão (pai de Nara), Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Christovam conta que a amiga o convidou para escrever o texto, mas que preferiu não entrar na seara teatral. “Como nunca havia escrito para teatro, preferi não arriscar”, comenta.
“Eu e Priscila (Vidca, diretora artística) já havíamos trabalhado juntas, mas sempre como contratadas. No ano passado, decidimos que faríamos algo juntas e que seria o musical da Nara. Ela convidou o Marcos para escrever que, por sua vez, estendeu o convite ao Hugo Suckman”, conta Aline, sobre a nova parceria entre Suckman e França. autores do elogiado “Deixa a dor por minha conta”, sobre Sidney Miller.
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Ponto de partida
A montagem do musical sobre Nara Leão, que tem direção musical de Guilherme Borges, aborda momentos marcantes da vida da cantora. O roteiro traz cerca de 20 canções, como “Primavera” (Lyra e Vinicius), “Carcará” (João do Vale, do histórico show “Opinião”, de 1965), “A banda” (Chico Buarque) e “Se é tarde me perdoa” (Lyra e Bôscoli). No palco, cinco músicos acompanham os atores: Ralphen Rocca (violão e guitarra), Nelson Freitas (piano), Leo Bandeira (bateria), Erick Soares (?autas) e David Nascimento (baixo acústico).
O ponto de partida é um show de Carlos Lyra nos anos 1980, quando o cantor se surpreendeu com a presença de Nara na plateia. Ela subiu ao palco e, na hora de cantar, teve um lapso de memória, decorrente de quando já estava doente - ela morreu precocemente aqos 47, por um tumor inoperável no cérebro. “Quisemos começar com um delírio, com ela confundindo realidade e sonho”, diz Aline.
Sem percorrer uma ordem cronológica, a história tem passagens marcantes, como a sua emancipação aos 16 anos, o encontro com Ronaldo Bôscoli, a aproximação do samba de morro, das canções de protesto, da Tropicália e o exílio na França. “Foi uma coincidência coletiva não nos preocuparmos com a linearidade. O importante é que tudo que está ali a Nara realmente falou”, ressalta Aline.
“É um musical genuinamente brasileiro, queremos passar longe da estética Broadway que parece ter tomado conta das produções nacionais nos últimos anos”, opina Christovam, ressaltando que trechos de “Opinião”, “Pobre menina rica” e “Os saltimbancos” são citados no musical. Do último, há três canções: “João e Maria”, “Soneto”, “História de uma gata”.
O idealizador ressalta o trabalho da diretora artística, que “está tirando Aline de sua zona de conforto”: “Eu e Priscila combinamos focar na imagem da mulher, sua persona foi mais forte que a artista, era inquieta, provocante. Gosto de dizer que este trabalho é um relato de amor”. Aline confessa que pouco sabia da trajetória de Nara e, como a maioria das pessoas, tinha como referência apenas a Bossa Nova. “Ela era forte na minha cabeça, mas eu tinha uma visão limitada. Lendo a biografia escrita por Sergio Cabral é que fui conhecer mais daquela mulher que provoca impressões tão contraditórias, como a de uma mulher frágil e, ao mesmo tempo, muito forte em suas opiniões e de grande importância na música. Ela lançou muitos artistas e gêneros”, destaca.
O espetáculo estreia sem patrocínio e faz temporada até 21 de maio em Ipanema. “Mesmo com essa dificuldade, comum na área teatral carioca, tudo pareceu conspirar a favor dessa montagem. Sabíamos que Joana Motta, ?lha de Nelson e Monica, havia comprado os direitos da Nara. Fui procurá-la e descobri que já haviam caducado. A Isabel Diegues (Ilha de Nara), que gostou muito do projeto e tem vontade que se fale da mãe, autorizou que tocássemos o musical”, conta Christovam.
