Reserva, muito além da vitrine
Rony Meisler fala sobre novos planos e chega até Harvard e MIT
Em 2005, um grupo de amigos vislumbrou que a ideia de que homens não curtem moda, o mercado consumidor masculino não é relevante e as mulheres são as responsáveis pelas compras dos maridos e namorados, poderia mudar. E mudou com o surgimento da Reserva, marca que hoje se desdobra também em Reserva Mini, Eva, Ahlma e Oficina. Nestes 13 anos, o público fiel movimenta as 70 lojas da grife. À frente dos negócios, sem negar a importância dos atuais 16 sócios, está Rony Meisler, que na próxima sexta-feira fala na terceira edição do evento “Brazil Conference” para a plateia de alunos brasileiros de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
O começo
“A Reserva sempre foi como uma mesa de bar. Começamos com dois sócios, eu e o Fernando Sigal, e foi chegando gente, todos falam o que pensam, de música, futebol, estilo de vida. Quando começamos a fazer roupas, encaramos uns dois desfiles no Fashion Rio. Era um sucesso de críticas de imprensa, mas e daí? Os amigos perguntavam ‘What the fuck?’, sem ver nada diferente do status quo vigente na moda. Aí, decidimos partir para shows. Com Lobão, com elencos sem modelos profissionais, depois com língua brasileira - todos sabem que não existe, é língua portuguesa. Mas nosso tema era beijo de língua, fizemos uma carreata de 52 quilômetros com casais se beijando, durante um Fashion Rio. A crítica de moda caiu de pau e...as vendas explodiram!”, conta Rony. O empresário se considera sortudo, porque nasceu em família classe média, estudou e tem formação em Engenharia de Produção na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Tem todo este trabalho da marca, rede de hambúrgueres “e três filhos!” - completa rindo. “Quero usar esta sorte, apostar em empreender. Há dez anos, o homem não comprava roupa. Agora, por exemplo, antes de partir para o mercado internacional (ainda há muita oportunidade para crescer no nosso país), vamos abrir a loja Oficina no shopping Leblon”, adianta. O faro de empreendedor é fino. “A história é a seguinte: navegando na internet descobri a Social Taylor (nome ruim, né?), que garantia entrega em dez dias úteis de camisas sob medida. Resolvi testar e deu certo. Os caras trabalhavam com banco de dados de medidas, barateando o custo com modelagem. Convoquei este pessoal para o grupo da Reserva, trocamos o nome para Oficina, anunciando que vamos investir na tradição da camisaria, com preços 25% acima dos da Zara”, destaca.
Navegar na internet é missão constante para a marca, nascida contemporânea das mídias sociais. Pesou na estratégia diferenciada de empresas com conceitos de varejo físico que tiveram que se adaptar ao digital. Os recentes desfiles da Reserva ao vivo na internet contaram com 500 mil pessoas on-line. “Todos vão comprar minha roupa? Claro que não, mas estão no meu circuito”, afirma.
Quem compra e quem vende
Rony confessa não ter explicação ou segredo para o sucesso. “Acho que somos diferentes porque somos de verdade”, tenta explicar. “Eu tenho o maior orgulho de ser varejista e comerciante, porque é muito difícil vender algo que muita gente vende. Há diferenças básicas no consumo; a mulher compra produto, troca de marca, muda de salão. O homem não troca nem de barbeiro, porque gosta do café, da cerveja, da conversa no lugar. Além de focar no produto, tem que focar na experiência, nos 360 graus de alcance. Para formar a primeira equipe de vendas entrevistei 150 candidatos. Escolhi cinco malucos, quatro estão conosco até hoje. Só uma, a Raquel, saiu, porque casou com um alemão e foi embora”, diz. O empresário conta que no início não havia metodologia de vendas nem treinamento padronizado. “Criamos um caderninho de sugestões de atendimento pelos próprios vendedores, chamado ‘Experiência Reserva’. Atualmente, são mais de quatro mil verbetes, assinados por quem sugeriu. Os ‘headhunters’ do mercado procuram quem assina estas dicas, feitas por boa parte das cerca de duas mil pessoas trabalhando nas equipes. Estamos na quarta geração do projeto, pretendendo abrir uma loja por mês, cada vez mais focados no consumidor. A loja do Norteshopping é o protótipo, a primeira oficial será no shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo”, avisa.
A moda
Em uma hora de entrevista não se falou de alfaiataria, camisa polo, cores, bermudas. Mas Rony mudou seu autoconceito neste tipo de assunto. “Devo muito ao Virgil Abloh, (37 anos, DJ, stylist do rapper Kanye West, dono da grife Off-White, trabalhou na Nike, Sunglass Hut, Ikea e Fendi), recentemente contratado como diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton. Sua primeira coleção será em junho, na semana de moda masculina em Paris. Agora, sei que entendo de moda, porque sigo um caminho parecido com o dele, levando em conta que moda é muito mais do que roupa. Sou muito grato ao Virgil”, diz. Engana-se quem pensa que Rony irá apresentar um resumo do currículo da Reserva ou orientações sobre vendas para a plateia de Boston na sexta-feira. “Vou fazer uma convocação para voltarem ao Brasil, falar sobre a revolução digital, da sorte que eles tiveram de estudar, ir para universidades tão importantes. Devem voltar e contribuir para melhorar o Brasil. Levo até uma camiseta para o evento, com a inscrição ‘Fazedores de limonada’!”, jura.
*Ex-editora de Moda e Revista Domingo
