Inquieto intelectual, Leandro Konder deixa uma vasta obra

Considerado o maior pensador marxista do Brasil, Konder escreveu mais de 20 livros de diversas áreas

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Advogado e filósofo, Leandro Konder morreu aos 78 anos durante a tarde desta quarta-feira (12). O velório acontece no Memorial do Carmo, na Zona Portuária do Rio. Desde 2011, Konder sofria com o Mal de Parkinson e sua morte se deveu a complicações da doença. A cremação acontece na manhã desta sexta-feira (14).

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Um dos principais divulgadores da filosofia marxista no Brasil, Konder nasceu em 3 de janeiro de 1936, em Petrópolis, região Serrana do Rio de Janeiro. Foi professor titular do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica no Rio de Janeiro (Puc-Rio) e do departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). O filósofo era filho do líder comunista Valério Konder, ex-líder do PCB, e irmão do jornalista Rodolfo Konder, falecido em maio deste ano.

Aos 14 anos, inspirado pela posição política do pai, Leandro Konder ingressou na União Juventude Comunista. Aos 15 anos, foi preso pela primeira vez. Leandro Konder chegou a ser preso e torturado durante a ditadura militar, quando defendeu causas trabalhistas, associações sindicais e se envolveu com militantes e movimentos sociais. O filósofo ficou preso junto com o jornalista Vladimir Herzog. Ele foi o primeiro a denunciar, ainda naquela época, que Herzog havia sido assassinado pelos torturadores da ditadura.

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Desde a década de 60, o filósofo foi um dos principais divulgadores do marxismo no Brasil. Seu primeiro livro sobre o tema, publicado em 1965, foi “Marxismo e Alienação”. Konder foi um pensador atuante até o final de sua vida, autor de inúmeras obras em diversas áreas de conhecimento como filosofia, sociologia, história e educação.

Konder foi forçado a se exilar em 1972, na Alemanha, onde trabalhou na Universidade de Bonn e lá concluiu seu doutorado, depois fixou residência na França. Foram, ao todo, seis anos de exílio. Em 1978 regressou ao país e passou a se dedicar aos estudos da obra do filósofo Gyorgy Lukacs (1885-1971) e ao projeto de propagar os estudos marxistas no Brasil.

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Konder foi autor de 21 livros e tem uma vasta produção em conferências, artigos de jornais, ensaios e ficção. Foi eleito, em 2002 o Intelectual do Ano pelo Fórum do Rio de Janeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autor de “Introdução ao Fascismo”, “As ideias Socialistas no Brasil, “O que é dialética” e “O futuro da filosofia práxis”. Segundo as próprias palavras do filósofo, ele nunca seguiu os conselhos do pai que dizia que ele poderia “falar as besteiras que quisesse”, mas jamais escrevê-las.

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Coordenou, em conjunto com Michael Löwy, a coleção Marxismo e Literatura da Boitempo Editorial. Em nota a Editora homenageou Konder definindo-o como “um ser humano extraordinário” e “acima de tudo, um amigo e companheiro de lutas”. Pela Boitempo, Konder publicou livros como “Em torno de Marz”, “As artes da palavra” e “Sobre o amor.

Konder pode ser chamado de “inquieto intelectual”. Durante 15 anos participou de um grupo de intelectuais chamado “Os Comuníadas”, uma alusão a “Os Lusíadas”, de Camões, e a palavra comunista. O grupo contava com participantes ilustres como Ferreira Gullar, Sergio Cabral, Milton Temer

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No Jornal do Brasil, Leandro Konder foi um colaborador esporádico, assinando artigos, críticas e participando de entrevistas. Contudo, em julho de 2002, Konder passou a escrever suas crônicas nas páginas do JB. Em seu primeiro artigo, publicado em um sábado no Caderno B, o JB apresentava Konder como um “apaixonado pelo pensamento”. O filósofo anunciou que não pretendia fazer editoriais, “mas apresentar crônicas de um sujeito bem-humorado que se preocupa com a política”.

Konder se tornou um prolífico colaborador do jornal durante dois anos, escrevendo sempre aos finais de semana. Em 10 de julho de 2004, o filósofo escreveu sua ultima coluna para o JB, intitulada “O cronista entrevista o obscuro Hegel”. Uma semana após a última publicação, uma mensagem aos leitores avisava que o filósofo já não escrevia mais para o jornal.

Sempre envolvido com política, Leandro Konder foi militante do PCB e do PT e fundador número 101 do Psol. 

Konder contou sua vida na autobiografia “Memórias de um intelectual Comunista”. Publicado em 2008, pela editora Civilização Brasileira, o livro reúne anotações pessoais do filósofo desde quando ele tinha 14 anos.

Leandro Konder deixa um filho, Carlos Nelson, de 37 anos; a viúva Cristina, com quem foi casado por 38 anos e a enteada Marcela.

Despedidas

O falecimento de Leandro Konder na quarta-feira comoveu diversos intelectuais e políticos. A Fundação Biblioteca Nacional (FBN) publicou em seu site uma nota de pesar pela morte do filósofo. Na nota, de autoria de Renato Lessa, presidente da FBN, Leandro Konder é chamado de “figura modelar, sempre fiel a seu enredo e horizonte político e intelectual” e que “foi um exemplo do que se pode ser a convivência civilizada com o diverso. Não por mera gentileza, mas pelo respeito à variedade de direções que a inteligência pode assumir”.

Destacando as qualidades do filósofo, a nota conclui: “a Biblioteca Nacional, por intermédio de seu presidente, manifesta se profundo pesar pela perda desse grande brasileiro”.

Fundador número 101 do Partido Socialismo e Liberdade, o Psol, Konder foi lembrado em nota oficial, publicada no site do partido. “Nosso partido lamenta profundamente a perda de Leandro Konder e se solidariza com a dor de amigos e familiares. Seu legado político e teórico seguirá conosco e com todos os que acreditam o socialismo”.

Companheiros de partido também relembraram o filósofo com pesar. Ex-candidato ao governo do Rio de Janeiro, Tarciso Motta publicou um texto no facebook em memória a Leandro Konder. Na legenda de uma foto da rede social, onde aparece um jovem Tarcisio Motta ao lado de Konder, a frase: “Grande mestre, grande companheiro! Leandro Konder, presente!”.

Em sua página oficial, o deputado estadual Marcelo Freixo homenageou Leandro Konder. “Perdemos um dos mais importantes pensadores marxistas do país”.

“Tivemos a honra de tê-lo na fundação do PSOL, pois sua militância é um patrimônio de toda a esquerda. Seu legado permanecerá na nossa memória de luta. Nosso mandato deseja toda solidariedade aos seus familiares e amigos. A esquerda agradece imensamente a sua contribuição”.

Chico Alencar, amigo próximo de Leandro Konder e companheiro do Psol, publicou uma mensagem em sua página oficial no Facebook. "A luz de Leandro: "perdemos o maior humanista e filósofo que o Brasil teve", lamenta o querido amigo e irmão Milton Temer. Eu insisto em achar que "o passado não conhece o seu lugar e teima em aparecer no presente" (Mário Quintana) e no futuro. O que Leandro Konder nos deixa é imorredouro!"