Negrini vive mulher no limite em filme sobre abandono do amor

Entra no circuito nesta sexta-feira 'O abismo prateado', de Karim Aïnouz 

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Estreia nesta sexta-feira (26) o filme O Abismo prateado, do diretor Karim Aïnouz (o mesmo de Madame SatãO Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), com Alessandra Negrini como protagonista. Baseada na música de Chico Buarque Olhos nos Olhos - que fazia o coração do diretor "bater mais forte" -, o filme conta a saga de Violeta, uma dentista de 40 anos que precisa enfrentar uma mudança brusca na sua vida definida. 

Alessandra Negrini encarou com responsabilidade o desafio de estar em cena em quase 100% do filme ("no começou eu falei, 'meu Deus'", disse ela, contando sua reação ao ver o roteiro). Mas nem por isso sua imagem cansa. Como protagonista, ela rouba a cena com sua ótima interpretação da personagem. Vivendo um surto, Violeta parece estar sempre prestes a explodir - mas não o faz. "O Karim trabalhou muito isso. 'Segura! Segura! Segura!'. O filme fala dessa tensão", disse ela, ao divulgar o filme na última segunda-feira (22), em São Paulo.

O grande barato é viver o momento de limite, em que tudo mudou

"O grande barato é viver o momento de limite, em que tudo mudou. Quando você deixa de ser aquilo que você era. É uma trajetória de cura, a jornada do herói. O herói que todos nós temos", continuou a atriz. 

Assim como outros longas do diretor, O Abismo Prateado conta a história de superação (e transformação) de um indivíduo. O assunto abordado no filme não poderia ser mais universal: o abandono do amor. Como ele próprio define, não faz filmes trágicos, e sim dramáticos. 

Além da presença constante de Negrini, o ritmo do filme é lento. As cenas quase acontecem em tempo real, deixando espaço para que o espectador se concentre em detalhes - a forma de pentear os cabelos, uma mancha no pescoço, um alongar de pés. "Me interesso mais em 800 pessoas que explodem de vida do que morrem por metralhadora. O cinema é um grande jeito de celebrar a vida", justifica Karim.

Me interesso mais em 800 pessoas que explodem de vida do que morrem por metralhadora

O Rio de Janeiro é tão importante na trama que se torna quase um personagem. As ruas, a praia, o aeroporto, a orla, o mar, o apartamento: cada canto da cidade é vital para o estado de espírito dos personagens. O filme tem poucos diálogos, mas Violeta conversa com a cidade.

"Era importante para mim que o filme fosse no Rio, porque acho que o universo do Chico é tão carioca... O filme conta a história de um personagem que está sozinho, tem pouca cena de interação. É quase como se a personagem que ela mais interagisse fosse a cidade", explicou o diretor.

Para um espectador desavisado, o título pode gerar dúvidas. Karim explica que pensou em fazer um filme homônimo à música (Olhos nos Olhos), mas achou que não seria justo com nenhuma das partes, já que a adaptação é bastante livre. Por fim, se inspirou nas ondas do mar à noite - cena que abre o filme, aliás - para dar o nome. "Nem sei se é o melhor título, é meio maluco. Mas acho que é bonito porque conjuga a perda, o abismo, o medo, com uma pequena possibilidade de redenção que a cor prateada dá."