A simpatia de Walter Salles e a antipatia de Leos Carax
Projeto de longa gestação, On the Road (Na estrada), coprodução entre a França e os Estados Unidos dirigida pelo brasileiro Walter Salles, fez sua estreia na competição nesta quarta-feira (23). Recebido com certa frieza pela plateia de jornalistas, na sessão matinal, a adaptação do clássico da literatura beat escrita por Jack Kerouac nos anos 50 foi ovacionada por cinco minutos ao final da sessão oficial, de gala, no início da noite.
Durante o encontro com a imprensa, o diretor carioca falou sobre sua relação com o livro, que descreve, em fragmentos, a aventura de dois aspirantes a escritores, Sal Paradise e Dean Moriarty, alteregos de Kerouac e Neal Cassady, pelas estradas dos Estados Unidos. A viagem de autoconhecimento é regada a drogas, sexo e muito jazz. Lançado em 1957, On the Road só ganhou uma edição brasileira depois do fim da ditadura militar, em 1985.
“Li On the Road pela primeira vez quando tinha 18 anos, em inglês, porque naquela época vivíamos sob a censura dos militares. Aqueles personagens tiveram a coragem de experimentar tudo aquilo na própria carne. Eles foram testemunhas do despertar político e social do país depois do otimismo do pós-guerra. A única maneira de desenvolver uma percepção crítica do mundo é através da experiência pessoal”, explicou Salles, que começou a desenvolver o projeto há oito anos.
O diretor desfilou pelo festival com grande parte do elenco do filme, que inclui Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Garrett Hedlund (Dean Moriarty), Sam Riley (Sal Paradise) e Kristen Stewart (a Bela da saga Crepúsculo), que interpreta Marylou, a amante liberal dos dois jovens escritores, alterego da escritora Luanne Hnderson. “Ela é o verdadeiro elo de ligação entre os dois rapazes”, contou Kristen, que diz não ter se intimidado com as muitas cenas de sexo: “Gosto de me desafiar, de ser provocada”.
A programação desta quarta-feira ganhou ares cinema de arte hermético com o candidato Holy Motors, de Leos Carax (o mesmo de Os amantes da Ponte Neuf). Amparado por pontas luxuosas de Eva Mendes – que entra muda e sai calada no papel de uma modelo sequestrada – e da cantora australiana Kylie Minogue, o filme descreve algumas horas na vida de um misterioso homem, que passa o dia interpretando diferentes personagens por encomenda, com hora e local marcado.
A bordo de uma limusine branca, dirigida por uma esguia mulher de meia idade, o sujeito atravessa Paris encarnando criaturas violentas, uma velha mendiga, um assassino de aluguel, um octogenário à beira da morte, e um pai de família preocupado com o comportamento antissocial da filha adolescente. O diretor demonstrou má vontade para decifrar seu filme. “Não faço filmes para o público, porque não sei quem ele é. A única coisa que sei é que o público estará morto em breve”.
