Cannes: violência física e psicológica marcam fim de semana

Por Carlos Helí - Especial para o JB

Violência física e psicológica estiveram na pauta dos títulos em competição exibidos no primeiro fim de semana do 65º Festival de Cannes. O sábado (18) começou tenso com a exibição de Lawless, de John Hillcoat, ambientado durante a Lei Seca (anos 20) nos Estados Unidos, e terminou com The hunt, de Thomas Vinterberg, sobre abusos sexuais cometidos contra crianças na Dinamarca.

Apoiado por um bando de estrelas hollywoodianas, como Jessica Chastain (Histórias Cruzadas), Tom Hardy (A origem) e Shia LaBeuf (Transformers), o filme de Hillcoat é inspirado em personagens reais. Durante muitos anos os irmãos Bondurant viveram da fabricação e comercialização ilegal de bebidas no interior de Illinois, subornando autoridades locais. Até serem caçados por um oficial de justiça.

Uma série de coincidências levam os Bondurant a acreditar que são imortais, e Hillcoat não economiza sangue e entranhas na hora de que tal superstição é posta à prova. A violência, segundo o diretor, é resultado de uma crise, sugerindo um paralelo entre a trama de Lawless e  o momento que vivemos hoje. “Existem muitos paralelos com aquele período, em relação ao caos econômico e o combate às drogas, por exemplo”, explicou o diretor.

Na sequência, Vinterberg trouxe para as telas um tópico delicado em qualquer parte do mundo. The hunt descreve o drama de um professor de jardim de infância de uma pequena vila dinamarquesa, acusado de abusar sexualmente de uma de suas alunas.

O diretor, um dos pioneiros do movimento Dogma 98, oferece aqui o ponto de vista do inocente: o suspeito, interpretado por Mads Mikkelsen, é vítima da imaginação fértil da pequena Klara, de apenas seis anos, que desenvolve uma inocente paixão pelo professor. Mas a vida do sujeito vira de ponta a cabeça, é hostilizado pelos amigos de infância e perseguido pelos moradores da cidade.

O roteiro do filme foi alimentado por diversos casos de abuso de menores na Dinamarca. “Mas a história final é inteiramente ficcional, é como uma fantasia doentia nossa”, avisou Vinterberg. “Na Dinamarca, temos um ditado que diz que só as crianças e os bêbados dizem a verdade.  Isso não é verdade. Às vezes, as crianças dizem mentiras só para satisfazerem os adultos a sua volta. Achei importante falar sobre esses assuntos”.

O clima voltou a ficar sombrio em Cannes na manhã deste domingo (20) com a exibição de Amour, de Michael Haneke (de A fita branca, ganhador da Palma de Ouro da edição de 2009). Aqui, o diretor austríaco, conhecido por suas visões pessimistas do mundo, debruça-se sobre a história de um casal de octogenários cujo amor é testado pela doença.

Professores de música aposentados, George (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) tem uma vida cultural ativa, até o dia em que ela sobre um derrame que deixa metade de seu corpo paralisado. A deterioração da saúde da mulher cobrará seu preço à consciência de George. Isabelle Huppert, em sua terceira colaboração com o diretor, interpreta a filha do casal.

O drama de George e Anne é contado sem qualquer sentimentalismo, marca registrada de Haneke. “Quando faço um filme não é para mostrar algo. Quando se chega a uma certa idade, é preciso lidar com as necessidades de pessoas que amamos. Isso acontece inclusive na minha família. O filme partiu dessa constatação”, contou o realizador, também ganhador do Grande Prêmio do Júri de Cannes com A professora de piano (2001).

A competição do fim de semana terminou mais leve com In another country, do sul-coreano Hong Sangsoo. O ponto de partida é uma jovem estudante de cinema que se refugia no litoral do país com a mãe para fugir de dívidas. Lá, ela começa a escrever roteiros para curtas-metragens que têm como protagonista uma mesma mulher, Anne, interpretada em suas três versões pela francesa Isabelle Huppert.

Na primeira história, Anne é uma cineasta famosa que chega ao tranquilo balneário e hospeda-se na cabana de um amigo. Na segunda, ela é uma mulher casada que desembarcou às escondidas no país para encontrar o amante coreano. No episódio de desfecho, Anne é recém-divorciada que veio visitar o país com uma amiga para esquecer o marido, que a trocou por uma coreana.

É um filme de narrativa simples e às vezes ingênua, no qual as diferentes versões da protagonista interage com o mesmo grupo de personagens: o casal que aluga a cabana, a filha deles, que administra o lugar, e o guarda-costa que flerta com ela.