Crítica: 'Paraísos artificiais'
Foi durante o último Cine PE, festival de cinema realizado anualmente na cidade de Recife, que o diretor Marcos Prado acusou o cinema brasileiro, já tão calejado e criticado, de ser pudico e careta. A declaração deve, obrigatoriamente, ganhar reflexão. Teria Prado passado os últimos 40 anos em Marte ou teria ele ignorado boa parte da produção nacional a partir 1970? Difícil saber. Seja lá como for, imagina-se que Paraísos Artificiais, longa que o diretor estava lançando em Recife em fins do mês de abril, fosse uma resposta direta ao pudor e a caretice vigentes (segundo ele) no cinema local.
Interessou-o a liberdade (e a libertinagem) daquilo que, em meados dos anos 90, comecinho dos 2000, vindo da Europa e queimando os mesmos combustíveis para suportar horas de música, parecia ser a atualização dos festivais dos anos 60: as raves.
Se a amnésia cinematográfica também o atinge, Leitor, saiba que o diretor deu uma resposta dura e contundente ao casto, segundo ele, cinema nacional: permeou seu (dele) filme com nudez, sexo e drogas. Ou seja, nada de novo e que combata frontalmente a caretice e o pudor. Neville D'Almeida fez mais nesta questão do que qualquer diretor brasileiro.
'Paraísos Artificiais' nasceu de um roteiro selecionado pelo laboratório de roteiros do Sesc Rio em 2008. Escrito por Bernardo Melo Barreto, chamava-se 'Posto 9' e dava conta da cultura das drogas supostamente associada ao local, em Ipanema, Rio de Janeiro. O tempo passou, o projeto foi rebatizado, reescrito e, surfando na onda de Tropa de Elite 1 e 2, dirigidos por José Padilha, sócio de Prado e produtor de Paraísos, ganhou as telas este ano.
Entre Rio, Amsterdam e uma praia selvagem no nordeste brasileiro, o longa tenta dar uma lição capenga sobre o perigo da drogas e, lembrem-se, combater o pudor e a caretice que nascem como mato em nosso cinema segundo Marcos Prado.
Se 75% de um filme está na escolha do elenco, Paraísos Artificiais ficou devendo, pelo menos, 45%. Livres de culpa, Nathália Dill ("aquela menina da novela das nove") e Luca Bianchi (até aqui, um competente desconhecido) se esforçam no protagonismo do longa. O que não ajuda é o paupérrimo roteiro, com diálogos risíveis e, para o espectador comum, por vezes, indecifráveis. Seus personagens (ela é DJ; ele desenha) se apaixonam, se separam e se reencontram entre muitas noites de amor, uma gravidez, duas mortes e uma prisão por tráfico internacional de drogas. É tarefa hercúlea interpretar personagens que passam por tais situações. Dill e Bianchi parecem jogar uma partida de xadrez de tão insípidas suas performances. Cercados de coadjuvantes anódinos, penam.
Ainda no terreno da reflexão, nota-se que a premissa do longa é que não se vive um período de liberdade e excessos (em todos os níveis conhecidos pelo homem) sem uma justa cobrança no futuro breve.
A geração "paz e amor", que tentou resolver os problemas do mundo colorindo-o e espalhando flores pelo cantos, começou a pagar o preço no show dos Stones em Altamont (tão bem retratado em Gimme Shelter, dos Irmãos Maysle). Não fizeram absolutamente nada.
A geração E (de 'ecstasy') não quis resolver problema nenhum, mas tão somente se afastar deles e ignorá-los, acampando numa praia selvagem, aplaudindo pôr do sol e tomando drogas.
É disso que trata, em última análise, Paraísos Artificiais. Os mantras ripongos regurgitados por um velho hippie doidão (Roney Vilela) conferem a nota cafona e fedida a mofo: "O conhecimento está em você", "Se você está em dúvida se vai ser, você já é", entre outras estultices.
Mudaram os tempos, permanecem os motes, morreram a caretice e o pudor. O cinema brasileiro mira no que vê e acerta no que não vê. Só não avisaram Marcos Prado.
Cotação: * (Regular)
