Crítica de teatro: 'Dorian'
Quando escreveu O Retrato de Dorian Gray, seu primeiro e único romance publicado, Oscar Wilde utilizou-se de uma larga tradição literária, que remontava à Grécia, para falar do desejo de superar as limitações do humano através da conquista de uma condição superior, infensa às consequências da passagem do tempo e à fragilidade da vida.
No prefácio a O Retrato de Dorian Gray, Wilde chegou a reconhecer que a noção por trás desta obra era antiga na história da literatura, mas que havia recebido, por parte dele, um novo tratamento. Assim, encontramos temas que aparecem nos diálogos de A República, de Platão, no Fausto, de Goethe, e em Tannhäuser, de Wagner. Tanto em Tannhäuser quanto em Fausto, nos deparamos com o anseio por superar a dor de existir, com o desespero diante da inevitabilidade da morte e da decadência física, que habitam o núcleo da própria experiência de viver. Esse é também o drama de Dorian Gray: um jovem belo, amado e festejado por sua beleza, que teme perdê-la e, assim, ver deteriorada a sua, aparentemente, única possibilidade de marcar o mundo de maneira singular.
É óbvio que, para tornar-se invulnerável aos efeitos negativos que a passagem do tempo traz aos corpos humanos, é necessário também abrir mão de ser homem, ou seja, deixar de ter a existência inscrita numa temporalidade. Ao optarem pelo favor dos deuses ou pelo pacto com o diabo, Fausto, Tannhäuser e Dorian se veem despojados de um futuro, justamente num universo onde tudo existe como devir.
Em O Retrato de Dorian Gray, Wilde discute esses temas dentro das preocupações da Inglaterra do final do período vitoriano e com a influência dos estilos artísticos predominantes à época, como o simbolismo, o esteticismo e o neo-gótico. A obsessão pelo belo, pela duplicidade das coisas e pelas questões da liberdade do indivíduo frente às amarras morais de uma sociedade onde essência e aparência quase sempre se opunham é trabalhada num discurso que não chega a propor pensamento inédito sobre o que aborda. Há, de certa maneira, no romance, a exposição de uma sensibilidade marginal que acaba por reproduzir os códigos daqueles que a marginalizaram.
A montagem que no momento ocupa os palcos do teatro Gláucio Gil foi bastante fiel ao material literário, colocando no jogo de cena, inclusive, as reflexões do autor sobre arte, política e sociologia, expostas no Prefácio preparado para a edição de 1891 do romance e ao longo da própria narrativa.
As escolhas de Renato Farias como encenador parecem focar-se na tarefa de pensar o dramático na fronteira com o épico. Apesar de não trabalhar com um narrador tradicional, esse papel é distribuído entre os atores, que se dividem nessa função. O cenário é composto basicamente por objetos que ajudam o elenco a contar a história e a situá-la no tempo e no espaço. Figurinos pouco realistas impedem que o público procure uma identificação direta com o que vê, o que caracteriza a preocupação do encenador por criar um discurso que se assuma como linguagem.
Dorian é um espetáculo que tem como foco refletir sobre as limitações do humano a partir do romance de Wilde e, por isso, procura ser-lhe fiel ao máximo, transpondo-o para o palco em suas características intrínsecas, sem o cuidado de dar-lhe uma estrutura mais especificamente dramática. Tal opção faz com que o resultado se torne suscetível às próprias falhas do material literário, claramente perceptíveis aos olhos contemporâneos. Apesar disso, resulta um trabalho que tem por mérito promover o contato do público com um dos mais lembrados clássicos da literatura de língua inglesa.
Cotação: * (Regular)
