Completando 10 anos de carreira, Casuarina apresenta novo disco em turnê 

Grupo de samba apresenta o álbum 'Trilhos/Terra Fime' em Niterói, neste sábado (19)

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Da Lapa para o mundo. Assim foi a trajetória do grupo Casuarina, que completou 10 anos de carreira em 2011. Com um disco recém saído do forno, os sambistas encaram uma fase mais madura do grupo, apostando em canções autorais e conquistando públicos em terras distantes da cidade maravilhosa.

Nesse sábado (19), o grupo apresentará o show de seu novo disco, Trilhos/Terra Firme, às 22h, no Bar do Meio, em Niterói. O quarto álbum da carreira traz quatorze sambas e nome duplo, traduzindo o momento do grupo que trilhou o caminho dos palcos do mundo e se firmou na terra natal, como um dos mais requisitados conjuntos de samba do país.

No show de lançamento, o grupo mostra o repertório do novo trabalho, numa atmosfera de "gafieira latina" com Dissimulata, passando pelo clima de uma roda de samba, com Samba de Helena, e pelo samba cadenciado e contemplativo de Murmúrio. Também estão presentes no show sucessos de discos anteriores.

Em conversa com o Jornal do Brasil, João Fernando (bandolim e vocais), falou sobre o novo disco, sobre a aventura de lançar um CD autoral e da evolução que o Casuarina sofreu nesses 10 anos. 

Qual a razão do disco ter um nome duplo?

Desde o início foi muito dificil escolher um nome. O álbum traz várias músicas com nomes fortes que se aplicariam ao disco. Depois de conversar muito, conseguimos ficar entre duas: Trilhos e Terra Firme. Tentamos criar conceitos em relação a elas. Trilhos é uma musica de movimento, de mudança. E Terra Firme é mais sobre ter o pé no chão, uma música calcada mais na tradição. Aí decidimos não decidir e deixar que o próprio público resolva com qual ideia se identifica mais. Como diz o texto do encarte, “nada é mais real do que a dúvida”. 

No Trilhos / Terra Firme, todas as musicas são composições próprias, diferente dos discos anteriores. Como é a ansiedade de lançar um álbum assim? Vocês pensam em lançar apenas CDs autorais daqui pra frente?

No samba é sempre arriscado lançar um disco autoral. Ficamos sem saber como seria a aceitação, com um frio na barriga, até porque o disco é bem denso, com letras fortes e confessionais, mas a resposta do público tem sido impressionante. Já tem gente que sabe a letra de cor e canta durante os shows. Nosso trabalho sempre foi calcado em regravações não muito óbvias, gravando o lado B de artistas conhecidos ou desconhecidos, e não é nossa intenção ficar só no autoral. Tem tanta coisa boa no samba que é precipitado decidir isso. Milhares de músicas ainda vão aparecer pra gente. Vai de cada trabalho.

E musicalmente? As canções deste disco têm alguma característica diferente das anteriores?

A maior diferença foi no processo de criação. Nas gravações anteriores, bem ou mal, já chegávamos com o repertorio e arranjos definidos e bem encaminhados. Dessa vez a gente foi conhecendo as musicas no processo. Foi tudo elaborado e finalizado dentro do estúdio. Problemas iam surgindo e iamos procurando as soluções durante as gravações. Pra 'Dissimulata', por exemplo, queriamos uma gafieria bem rasgada, com uma levada latina. Convidamos o Humberto Araújo, da Orquestra Criôla, e ele captou a ideia de uma maneira muito especial.

Sem dúvida, completar uma década é marcante. Conte um pouco de como foi a trajetória do Casuarina nesses 10 anos?

Eu conheci Gabriel, Rafael e Daniel na UNIRIO, fazendo um curso de teoria musical, e passamos a frequentar a Lapa juntos. O pessoal do curso sempre organizava um sarau ao final de todo semestre, e nós pilhamos de fazer um número de samba. A partir daí não paramos mais. Começamos a ensair na casa dos pais do Rafael, na rua Casuarina, no Humaíta, de onde tiramos nosso nome, e quando nos demos conta estávamos tocando de segunda a segunda, cada noite num lugar diferente. Hoje estamos mais maduros. Temos mais maturidade na hora de fazer um disco, de formatar o show, de lidar com o público e imprensa. As coisas tomaram proporções que não esperávamos e tiramos grandes experiências disso tudo. Coincidentemente, no dia do aniversário de grupo, 1º de novembro, estávamos tocando em Cuba e foi uma ocasião muito simbólica pra gente.

Vocês são sucesso de público, crítica e tem prestígio entre os próprios sambistas. Como é ter todo esse reconhecimento de diferente esferas?

É sensacional. Já recebemos diversos prêmios da crítica como o Prêmio Rival, Prêmio Tim e várias outras indicações. É uma coisa que a gente não imaginava. Vermos o nome Casuarina na quadra do Salgueiro e da Mangueira também é muito gratificante. Mas, sem desmerecer os críticos ou sambistas, nós fazemos tudo pelo público. É o público que vai ao show, que compra nosso CD, que interage no Facebook... Na hora do 'vamos ver' é o público que está com a gente, que nos acompanha na batalha.  

Como está sendo a turnê de apresentação do novo disco?

Já apresentamos em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Juiz de Fora. E foi uma grande surpresa. Não pensávamos que o show de Porto Alegre, por exemplo, ia estar lotado e com todo mundo cantando as músicas junto da gente. Foi espetacular. O show está sendo muito bem recebido. Amanhã (19) tocamos em Niterói e continuamos a rodar por São Paulo, Rio, Vitória...

Vocês são "filhos da Lapa", porém têm feito muitos shows pelo Brasil - e mundo - afora. O sucesso tem afastado vocês do reduto da boemia carioca?

De fato, temos tocado muito menos no Rio. Faz parte de um processo cíclico. Nós viajamos e sempre voltamos à Lapa. A gente voa, voa e sempre acaba pousando de volta na Lapa. É a nossa casa, onde nos sentimos a vontade, onde a gente conhece todo mundo.

Vladimir Pontes