Samba, o dom do Rio
RIO - Cantado e tocado por uma infinidade de artistas e idolatrado por estrangeiros em vários cantos do mundo, o samba, ritmo possivelmente originário da África, provavelmente do Congo ou de Angola, de onde vieram a maior parte dos escravos para o Brasil, iniciou sua história ao se estabelecer no Rio de Janeiro em 1850, nas imediações do Morro da Conceição, Pedra do Sal, Praça Mauá, Praça XI, Cidade Nova, Saúde e Zona Portuária. De quadra, de enredo, de roda, de partido alto, de terreiro ou mesmo de canção, o samba, nome considerado uma corruptela de ‘Semba’ - umbigada para os africanos – é comemorado hoje, dia 2 de dezembro. A data, uma homenagem ao ritmo, a seus sambistas e músicos, e festejada na cidade em eventos como o Trem do Samba - sucesso absoluto que leva milhares de pessoas, inclusive de outros estados, à Oswaldo Cruz, na Zona Norte – ratifica, ano após ano, a sua força cultural e sua importância na história da MPB.
- O Rio que se recupera sempre foi o Rio da Música Popular Brasileira. O Rio de Janeiro, capital do estado, sempre foi o foco número 1 do samba. Foi aqui, e não me venham com esta história de que o samba nasceu na Bahia porque é meia verdade, mas aqui é que ele foi construído e se transformou no samba carioca. O samba começou na Casa de Tia Ciata, nas imediações da Praça XI, onde hoje está o Sambódromo, e, em seguida, foi sendo consolidado no sopé do morro do Estacio de Sá, com Ismael Silva e outros bambas, na década de 20 – conta o jornalista e pesquisador de música, Ricardo Cravo Albin.
“Deixa as mágoas pra trás, ó rapaz”
O primeiro samba a ser gravado, em 1917, "Pelo telefone", de autoria dos compositores Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos - 1890/1974) e Mauro de Almeida (jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios - 1882/1956) afirmaria ainda mais o potencial do ritmo concebido nas rodas de samba de Tia Ciata:
- O samba tem como berço Donga na Casa da Tia Ciata e Ismael Silva. Tem como fulcro de universalização Ary Barroso com Aquarela do Brasil e sua ida à Hollywood e seu encontro com Carmem Miranda. É um orgulho legítimo que o samba que é pai da Bossa Nova, que não é senão um samba modificado pelo violão de João Gilberto, tenha sido reiterado pela Bossa Nova, e tenha se transformado no produto cultural número 1 de que dispõe o Brasil – acrescenta.
Segundo Cravo Albin, a história da construção do samba, sua criação e origem é bem mais complexa do que se pode imaginar. Ela se costura nos centros urbanos do Rio, Salvador e Recife, e no meio rural, em engenhos e fazendas.
- A história se matura na rolança dos séculos quando os escravos aportam ao Brasil e se mesclam com índios e brancos. A partir daí, a origem do samba foi se consolidando especialmente a partir da cultura negra. A batida do samba é definida como ancestralidade negra sobretudo dos redutos urbanos do Rio, de Salvador,e de Recife, capital fortíssima e que abrigou muitos negros também. Tudo isso, que também estava na ruralidade, nos engenhos e fazendas, fez com que o samba se armasse no começo e é determinado historicamente com a gravação de ‘Pelo Telefone’ ainda como maxixe e depois, com a forma atual, com Ismael Silva e seu grupo de Estácio de Sá, entre 1925 e 1927. O Rio de Janeiro é o berço do samba.
"Joaquim José da Silva Xavier/ Morreu em 21 de abril (...)"
Conta-se que o primeiro samba-enredo gravado foi "Exaltação à Tiradentes", da Escola de Samba Império Serrano, de autoria dos compositores Fernando Barbosa Júnior, Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado, no final da década de 40. Antes disso, em 1927, surgiria a primeira escola de samba, a Deixa Falar, no bairro do Estácio de Sá.
O potencial da música que fascina pela batida, pela dança e por seu gindado seguiu seu curso e se estabeleceu com a criação das escolas de samba. Divulgadas em todo mundo, elas se tornaram o retrato, a identidade do povo nascido e criado no Rio de Janeiro e do próprio povo brasileiro.
Diretor e criador do Instituto Cravo Albin, espaço cultural que contém extenso acervo sobre a história da MPB, Ricardo lembra o primeiro LP que reuniu os sambas-enredos das escolas de samba, no ano de 1968.
- Temos no acervo do Instituto Cravo Albim o primeiro LP feito para abrigar todos os sambas de enredo do ano, feito quando eu era diretor-executivo do Museu da Imagem do Som. Este disco é uma preciosidade – destaca.
Trem do Samba
Em sua 15ª edição, a comemoração acontecerá em dois dias. No Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro, às 19h, Marquinhos de Oswaldo Cruz, compositor e idealizador do evento, recebe a Velha Guarda da Portela, Velha Guarda do Império Serrano, Jongo da Serrinha, Mauro Diniz, Serginho Procópio e Renatinho Partideiro, no palco montado na estação Central do Brasil.
No sábado, dia 4 de dezembro, a partir das 11h, será realizado show, no mesmo palco, com Marquinhos de Oswaldo Cruz recebendo grandes nomes: Wilson Moreira, Nelson Sargento, e Velhas Guardas.
Este ano o Trem do Samba saírá apenas no dia 4 de dezembro. Serão três composições de oito carros, em cada carro haverá uma atração tocando samba até a estação do subúrbio. Para embarcar nos trens será necessário levar 1Kg de alimento não perecível ou pagar a passagem no valor de R$ 2,50. As trocas por alimentos serão limitadas até as primeiras três mil pessoas. O material arrecadado será doado ao Programa Fome Zero.
