Retrospectiva dedicada a Anita Malfatti mapeia períodos da pintora

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Rígido profissional liberal paulista, Jorge Krub tomou um susto ao ver as obras da sobrinha, a quem havia enviado, aos seus custos, para um curta temporada em escolas de arte americanas. Passando os olhos pelas estranhas formas gravadas nas telas, gravuras e desenhos trazidos pela moça, então com pouco mais de 20 anos, não pode conter a decepção. Isto não é pintura, são coisas dantescas , lamentou.

A sobrinha, no caso, era Anita Malfatti, futuro nome emblemático das artes brasileiras, mas que na sua volta ao Brasil, em 1916, encontrava resistências ao seu traço singular, muito longe da pintura acadêmica apreciada por sua família e a sociedade de forma geral. Talvez o tio Krub não soubesse, mas eram justamente as suas experimentações dantescas da sobrinha que contribuiriam decisivamente para a cultura brasileira, inspirando o modernismo e outros movimentos. A obra de Anita, nascida há 120 anos, ganha a sua maior retrospectiva até hoje. A partir de sexta-feira (com abertura para o público no sábado), o CCBB reunirá um acervo de 120 obras vindas de 70 museus e colecionadores particulares, que contemplam as diversas fases exploradas pela pintora paulistana, morta em 1964.

Como tinha uma ótima técnica, Anita podia se dar o luxo transitar entre várias escolas com a mesma habilidade avalia a curadora Luzia Portinari, sobrinha de Cândido. É uma retrospectiva, então queríamos mostrar todas as facetas da trajetória dela.

Vista por 50 mil pessoas em Brasília, a exposição se divide em sete módulos temáticos, dispostos cronologicamente, indo desde o impressionismo dos primeiros anos (1909 a 1914) às cenas da vida brasileira, que registrou em sua maturidade artística. Mesmo contando com muitas obras de seu período mais famoso, o expressionista, no qual se mostrava fortemente influenciada por suas experiências alemã e americana, a mostra prioriza algumas raridades pouco vistas pelo público brasileiro em detrimento de alguns clássicos. A obra-prima O farol, paisagem de cores abundantes pintada durante seus estudos nos Estados Unidos, ficou de fora.

A exposição começa e termina com raridades, com o seu primeiro quadro (Burrinho correndo) e o último, que permaneceu inacabado. Outras preciosidades pouco comuns são peças da sua primeira exposição individual, de 1914, as naturalistas Meu irmão Alexandre, Mulher de vestido vermelho e Fazendo pão.

Buscamos muitas obras de coleções particulares, algumas nunca exibidas conta Luzia. Tem as mais promovidas e também as mais raras, que localizamos em museus e coleções e pedimos o empréstimo.

Anita despontou para as artes em 1917, com a sua segunda exposição individual. Com influências expresisonistas e cubistas, obras como Tropical e Sinfonia colorida tiveram repercussão razoável, até que a polêmica carta de Monteiro Lobato surgisse para incendiar os ânimos. Criticando o que ele chamava de essa tal arte moderna , o escritor acabou incitando a fúria dos do grupo de intelectuais que viria idealizar a Semana de 22. Os futuros modernistas encontraram na figura do autor do Sítio do Picapau Amarelo um inimigo comum, e acabaram unindo-se contra suas ideias.

Existe muita controvérsia a respeito, mas Anita foi a verdadeira pioneira do modernismo opina Luzia. Há pesquisadores que citam a exposição do Lasar Segall, ou a evolução gradual de pintores como Visconti e Belmiro de Almeida. Mas o impacto veio com a exposição da Anita. Ela abriu os olhos de muita gente, mostrando uma realidade europeia que não era conhecida no Brasil. Em um artigo, Mario de Andrade chegou a afirmar que foi aquela exposição de Anita, em 1917, que despertou a sua curiosidade para o modernismo.

Desse período, destaque para o obras como a cubista e expressionista O homem amarelo, óleo que tanto impressionou Mario de Andrade; A amiga, um dos muitos trabalhos em carvão presentes na mostra; A ventania, com forte influência de Van Gogh; e dois nus masculinos, O torso e O homem de 7 cores.

Mais tarde, Anita passaria a uma estética mais comportada, tida como uma reação às críticas de Lobato. Mas as mudanças em sua obra antecedem a carta do escritor, como comprova a tela Tropical, de 1917, outra peça representativa da mostra.

É uma obra simbólica por mostrar a passagem para o que iria produzir mais tarde explica a curadora. Não tem nada do expressionismo ou do impressonismo. Com Tropical, Anita começa a agregar sua pintura ao naturalismo, adquirindo um ritmo cada vez maior.

Apesar de ter morado na Alemanha em um período onde vibrava a arte expressionista no país, Anita só foi explorar os códigos da corrente durante sua passagem nos Estados Unidos. A pintora também teve contato com outras tendências modernas que predominavam por lá, como o futurismo, o sincronismo, além do cubismo e o fauvismo.

Depois de atritos com o seu primeiro professor americano ( Ele foi ficando com raiva de mim, e eu dele , escreveu certa vez a pintora), encontrou seu caminho na Independent School of Art de Homer Boss um mestre considerado maluco por seus contemporâneos, mas que se entendeu muito bem com Anita. É dessa época algumas de suas principais joias expressionistas, como O farol. O problema foi, de volta ao Brasil, convencer a família de que poderia ser artista produzindo obras dantescas .

Seu pai havia morrido e o chefe da família era o seu tio Krub esclarece Luzia. Apesar do nome italiano, Anita foi educada na família da mãe, na qual predominava um ambiente alemão. Krub era um profissional liberal rígido, cuja ideia de arte eram santinhos de colégio. Ele financiou a formação de Anita por imaginar que ela poderia ser uma professora, e assim sustentar-se apesar da sua deficiência física (Anita nasceu com atrofia no braço e na mão direita). Ser artista, porém, era algo mal visto naquele meio.

>> Em cartaz

Anita Malfatti 120 anos

CCBB, Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808 2020). De 3ª a dom., de 9h às 21h. Entrada franca. Abertura na sexta-feira